sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Tantas mulheres, tantas salas
Hoje o presente veio da minha muito amada Sunny, prima linda, sensível, gentil, talentosa, batalhadora, grande amiga, sim, mas principalmente uma GRANDE sobrinha - e ela sabe porquê (qualquer dia, conto tudo.)
Melissa,há uns dez dias, comentei com o Daniel que lamemtava nao ter fotos da casa da vó Lourdinha e como você passei a tentar descrevê-la para ele.Não parece mas há mais de quinze anos não temos a nossa mansão.Mas é impressionante como ela se mantem totalmente viva na nossa lembrança.Nao sei se você sabe mas depois que a vovó morreu,como forma de manter um pedacinho daquela ilustre e lustrosa sala, ficamos com aquele console de madeira e marmore, conjunto do espelho que até hoje distorce a imagem de quem o mira, transformando todos em fantasmas.
Fantasmas... não sei se você lembra, mas a saleta do telefone da qual a Tainá falou, era habitada por vários,pelo menos no meu imaginário. Era lá que "descansavam em paz" as fotos do meu pai (tio Nandinho),do bisavô Luís e da bisavó com cara de melancolia. Jamais fiquei sozinha na saleta por mais que um segundo, se fitei algum dos retratos foi por total descuido e quando me pediam para ir atender o telefone, à noite, eu ia com o maior de todos os frios na barriga, ouvir "pour elise" da caixinha de música de espera do telefone, como se estivesse prestes a assistir um baile dos mortos.
Momentos "difíceis" também passávamos, ao transitar,após o meio dia, em frente a porta do quarto da vovó. Pois a esta hora, a mais "Gadelha" da dorminhoca família gadelha, tirava a sua longa siesta. E ai de quem batesse na porta ou pisasse forte no chão.
Lembrar de qualquer coisa daquela casa traz a todas nós o choro e alegria dos que sabem amar. Me lembra um pouco Gabriel Garcia Marquez, suas casas, suas famílias seus sentimentos. Você sabe que o meu pai morreu muito cedo, mas eu realmente me senti orfã quando passamos ao não ter mais os natais da nossa singular família, nas salas da casa da Vó Lourdinha.
Te amo, Sunny
Melissa,há uns dez dias, comentei com o Daniel que lamemtava nao ter fotos da casa da vó Lourdinha e como você passei a tentar descrevê-la para ele.Não parece mas há mais de quinze anos não temos a nossa mansão.Mas é impressionante como ela se mantem totalmente viva na nossa lembrança.Nao sei se você sabe mas depois que a vovó morreu,como forma de manter um pedacinho daquela ilustre e lustrosa sala, ficamos com aquele console de madeira e marmore, conjunto do espelho que até hoje distorce a imagem de quem o mira, transformando todos em fantasmas.
Fantasmas... não sei se você lembra, mas a saleta do telefone da qual a Tainá falou, era habitada por vários,pelo menos no meu imaginário. Era lá que "descansavam em paz" as fotos do meu pai (tio Nandinho),do bisavô Luís e da bisavó com cara de melancolia. Jamais fiquei sozinha na saleta por mais que um segundo, se fitei algum dos retratos foi por total descuido e quando me pediam para ir atender o telefone, à noite, eu ia com o maior de todos os frios na barriga, ouvir "pour elise" da caixinha de música de espera do telefone, como se estivesse prestes a assistir um baile dos mortos.
Momentos "difíceis" também passávamos, ao transitar,após o meio dia, em frente a porta do quarto da vovó. Pois a esta hora, a mais "Gadelha" da dorminhoca família gadelha, tirava a sua longa siesta. E ai de quem batesse na porta ou pisasse forte no chão.
Lembrar de qualquer coisa daquela casa traz a todas nós o choro e alegria dos que sabem amar. Me lembra um pouco Gabriel Garcia Marquez, suas casas, suas famílias seus sentimentos. Você sabe que o meu pai morreu muito cedo, mas eu realmente me senti orfã quando passamos ao não ter mais os natais da nossa singular família, nas salas da casa da Vó Lourdinha.
Te amo, Sunny
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Espera até começar a andar
Não foi por falta de aviso.
Enquanto me queixava, durante a licença paternal, da falta de companhia que o Gabriel me fazia, alguns pais mais experientes avisavam-me convictos que o melhor era aproveitar agora porque, depois, não teria sossego nenhum e a companhia que reclamava, podia ficar ciente, quando viesse, chegaria a dobrar.
Dito e feito. Agora com 11 meses, a cria arrasta-se airosa pelo chão como uma lesma supersónica sem olhar para os perigos que a rodeiam. Mas a natureza é perfeita, como se costuma dizer, e o juízo que ainda não deu ao filho concedeu-o ao pai, apetrechando-o assim duma extremosa atenção que o faz ter sempre um olho na lesma e outro no cigano.
Já se sabe que os riscos são muitos. Desde tomadas a fios, passando pelos clássicos cantos de mesa até chegar aos aquecedores. Tudo é perigoso e susceptível de ferir o rastejante. Portanto, se me queixava que não tinha tempo para tudo na vida, agora, acreditem, menos tenho. Se estou a ler um livro sossegado com ele ao lado e a concentrar-me na prosa do escritor, a determinada altura o rasteirinho de três palmos estica-me o pescoço e começa determinado uma marcha até sabe Deus onde. Alço-lhe a mão e o pobre coitado lá fica a espernear no vazio:
- Tá lá quietinho, vá!
Quando estou a ver televisão calmamente sentado no sofá com ele a descansar sobre o peito, numa imagem idílica fabricada pela Anna Guedes, o catraio lembra-se sempre dum afazer urgente, daqueles que não podem esperar, rebola como um leão marinho de Jardim zoológico e lá vai ele:
- Tá lá quietinho, vá!
Apesar de não ser nenhum supra-sumo do desenvolvimento infantil, principalmente no que toca a coordenação motora, a atenção que ele desenvolveu a sons e movimentos é agora tanta que basta a mãe tossir para que ponha o turbo percorrendo, destemido e de sorriso largo, qualquer distância até ao seu objectivo:
- Tá lá quietinho, vá!
Com esta rambóia só consigo descansar mesmo ao fim do dia, depois da sopa comida e do banho tomado. Lá me deito e repousado no leito ao lado da minha mulher, beijo-lhe o pescoço e aninho-me para lhe sentir o calor:
- Tá lá quietinho, vá!
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
As outras salas da vovó Lourdinha
Porque cada mulher tem as suas salas da vovó Lourdinha no coração, elas merecem outro post - e outro, e outro, quantas forem as salas da vovó Lourdinha que aparecerem, pelo meu filho, pelos filhos que os meus primos e tios tiveram depois do fim da casa da Carlos Vasconcelos.
Aqui ficam as salas da vovó Lourdinha da tia Ane, a arquitecta recém-formada do texto, irmã da minha mãe (e, de certa forma, uma substituta desta no meu coração e na minha vida.)
Ao ler o seu texto fiquei com tanta saudade. Lembrei da sala que representava todos os sonhos da mãezinha em termos de casa, daquela casa arrumada que um monte de crianças pequenas não permitia-lhe tê-la. O tamanho da sala foi fruto da imaginação de uma arquiteta récem-formada que o pai disse vá lá faça um projeto de reforma para a nossa casa e saiu a tal sala para a decoração dos sonhos da dona da casa. Naquela sala tinha algumas peças sensacionais, como por exemplo dois banquinhos com o tampo de louça que quando as visitas chegavam ela praticamente gritava: "cuidado não pode sentar que quebra". Era a verdadeira sala de visitas das nossas antigas casas coloniais. Sobre os objetos dessa sala poderia escrever várias páginas pois cada um tinha a sua estória já que não foram comprados de uma só vez.
Acabou a sessão choradeira, chega.
-----
As salas da vovó Lourdinha da minha prima Tainá, mais nova alguns cinco anos do que eu, estilista e cheia de estilo:
Tinham dois tapetes, um abaixo das cadeiras de visita e outro abaixo da mesa de jantar... Dividindo estes ambientes um corrimão de madeira sempre lustrado com "óleo de peroba". Lembra do pote de balas Soft? Não se podia chupa-las e conversar ao mesmo tempo. Isso podia matar (rsrsrsrs). Lembra o motivo pelo qual não podíamos passar pela sala? As marcas de pés no piso encerado!!!
A porta que dividia a sala mórbida (matrix) da sala real era linda! Toda de treliça... Ah, você não citou a saleta do telefone... Com suas poltronas confortáveis, um quadro do Tio Nandinho e outro meio surrealista que até hoje penso ser uma nave espacial... Um tacho de cobre com revistas (meu pai tem trauma deste). Esta saleta dava acesso para a garagem... Ai, ai... Tão vivo em nossas memórias.
Adorei a forma como a memória da tia completa a minha memória e a da Tainá. Então as salas mortas, afinal, eram o sonho de vida perfeita da vovó. Nunca as tinha visto assim. Nunca tinha entendido bem aquelas salas, mas agora, dona da minha própria casa caótica e com minifamília caótica, meu Deus, como eu entendo essa necessidade de ter um lugar, que seja, sem ser invadido pelo caos da realidade. Um lugar de sonho.
(E, obviamente, esperarei o tempo que for necessário para a tia Ane escrever sobre os objectos da sala-modelo.)
Aqui ficam as salas da vovó Lourdinha da tia Ane, a arquitecta recém-formada do texto, irmã da minha mãe (e, de certa forma, uma substituta desta no meu coração e na minha vida.)
Ao ler o seu texto fiquei com tanta saudade. Lembrei da sala que representava todos os sonhos da mãezinha em termos de casa, daquela casa arrumada que um monte de crianças pequenas não permitia-lhe tê-la. O tamanho da sala foi fruto da imaginação de uma arquiteta récem-formada que o pai disse vá lá faça um projeto de reforma para a nossa casa e saiu a tal sala para a decoração dos sonhos da dona da casa. Naquela sala tinha algumas peças sensacionais, como por exemplo dois banquinhos com o tampo de louça que quando as visitas chegavam ela praticamente gritava: "cuidado não pode sentar que quebra". Era a verdadeira sala de visitas das nossas antigas casas coloniais. Sobre os objetos dessa sala poderia escrever várias páginas pois cada um tinha a sua estória já que não foram comprados de uma só vez.
Acabou a sessão choradeira, chega.
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As salas da vovó Lourdinha da minha prima Tainá, mais nova alguns cinco anos do que eu, estilista e cheia de estilo:
Tinham dois tapetes, um abaixo das cadeiras de visita e outro abaixo da mesa de jantar... Dividindo estes ambientes um corrimão de madeira sempre lustrado com "óleo de peroba". Lembra do pote de balas Soft? Não se podia chupa-las e conversar ao mesmo tempo. Isso podia matar (rsrsrsrs). Lembra o motivo pelo qual não podíamos passar pela sala? As marcas de pés no piso encerado!!!
A porta que dividia a sala mórbida (matrix) da sala real era linda! Toda de treliça... Ah, você não citou a saleta do telefone... Com suas poltronas confortáveis, um quadro do Tio Nandinho e outro meio surrealista que até hoje penso ser uma nave espacial... Um tacho de cobre com revistas (meu pai tem trauma deste). Esta saleta dava acesso para a garagem... Ai, ai... Tão vivo em nossas memórias.
Adorei a forma como a memória da tia completa a minha memória e a da Tainá. Então as salas mortas, afinal, eram o sonho de vida perfeita da vovó. Nunca as tinha visto assim. Nunca tinha entendido bem aquelas salas, mas agora, dona da minha própria casa caótica e com minifamília caótica, meu Deus, como eu entendo essa necessidade de ter um lugar, que seja, sem ser invadido pelo caos da realidade. Um lugar de sonho.
(E, obviamente, esperarei o tempo que for necessário para a tia Ane escrever sobre os objectos da sala-modelo.)
sábado, 23 de janeiro de 2010
As salas da vovó Lourdinha
A casa da Carlos Vasconcelos era claramente dividida em duas partes. Quando entrávamos vindos da varanda, à esquerda, tínhamos uma sala de visitas impecável, com sofá e cadeiras de palhinha, almofadas aveludadas, bibelôs nos sítios certos. Logo adiante, uma mesa de jantar comprida, preta, com as respectivas cadeiras, um bom centro de mesa, cristaleira, talvez tapete - o tapete pode ser produto da minha imaginação, pois sou de uma zona quente onde os tapetes estão sempre um bocado a mais.
Estas duas salas ocupavam um espaço gigantesco. Toda a minha casa caberia nesse espaço, sobrando ainda, provavelmente, um bom terraço.
Mas ninguém as habitava, eram salas mortas. Como um plateau, um cenário. Estavam sempre limpíssimas e em ordem, inanimadas.
(Algum primo vai surgir e dizer que estou a ser injusta, porque os amigos secretos eram lá. Tá bem, pronto, a sala de jantar era usada uma vez por ano, mas não era para comer.)
Mas... havia uma portinha. Não era um portão, era mesmo uma porta estreita, padrão, para passar uma pessoa de cada vez.
E, ao passar dessa portinha, a vida da nossa família explodia diante dos nossos olhos, com todas as suas gentes e hábitos. Uma outra sala de estar, com cadeiras desconjuntadas e espreguiçadeiras de lona enfileiradas de frente para uma velha TV. A minha avó na sua cadeira de baloiço, a crochetar uma colcha, alheia, vendo a novela, berrando com este ou com aquele. Sempre uma ou outra pessoa sentada nas cadeiras, visita ou família, que era repreendido cada vez que a interrompia. Da cozinha, à direita, cantava um rádio, a empregada, um ou outro tio ou primo que fosse penicar alguma coisa.
À esquerda, também havia a sala de jantar verdadeira, talvez de fórmica, talvez de outro material qualquer, com uma toalha bem lavada, com cadeiras velhas, onde todo mundo que chegasse tinha lugar.
Quem não passasse da portinha - portal? - acharia, pelas salas-múmia, que éramos emperdenidos, emperdigados, enfadonhos.
No entanto, éramos todos tão vivos e barulhentos e estridentes e comilões do lado de lá, só para nós mesmos, só para quem merecesse.
E agora com licença, que vou ali chorar um pouquinho de saudades.
Estas duas salas ocupavam um espaço gigantesco. Toda a minha casa caberia nesse espaço, sobrando ainda, provavelmente, um bom terraço.
Mas ninguém as habitava, eram salas mortas. Como um plateau, um cenário. Estavam sempre limpíssimas e em ordem, inanimadas.
(Algum primo vai surgir e dizer que estou a ser injusta, porque os amigos secretos eram lá. Tá bem, pronto, a sala de jantar era usada uma vez por ano, mas não era para comer.)
Mas... havia uma portinha. Não era um portão, era mesmo uma porta estreita, padrão, para passar uma pessoa de cada vez.
E, ao passar dessa portinha, a vida da nossa família explodia diante dos nossos olhos, com todas as suas gentes e hábitos. Uma outra sala de estar, com cadeiras desconjuntadas e espreguiçadeiras de lona enfileiradas de frente para uma velha TV. A minha avó na sua cadeira de baloiço, a crochetar uma colcha, alheia, vendo a novela, berrando com este ou com aquele. Sempre uma ou outra pessoa sentada nas cadeiras, visita ou família, que era repreendido cada vez que a interrompia. Da cozinha, à direita, cantava um rádio, a empregada, um ou outro tio ou primo que fosse penicar alguma coisa.
À esquerda, também havia a sala de jantar verdadeira, talvez de fórmica, talvez de outro material qualquer, com uma toalha bem lavada, com cadeiras velhas, onde todo mundo que chegasse tinha lugar.
Quem não passasse da portinha - portal? - acharia, pelas salas-múmia, que éramos emperdenidos, emperdigados, enfadonhos.
No entanto, éramos todos tão vivos e barulhentos e estridentes e comilões do lado de lá, só para nós mesmos, só para quem merecesse.
E agora com licença, que vou ali chorar um pouquinho de saudades.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Interlúdio depressivo
Mais um segredo:
Às vezes sou invadida por uma angústia tremenda, que vem varrendo tudo e matando tudo, e é algo físico, algo que me tira o fôlego e que me afoga, e que me abre um buraco cá dentro, isto tudo sem qualquer motivo explicável ou qualquer motivo à superfície.
Dura algumas horas e é tenebroso.
Às vezes sou invadida por uma angústia tremenda, que vem varrendo tudo e matando tudo, e é algo físico, algo que me tira o fôlego e que me afoga, e que me abre um buraco cá dentro, isto tudo sem qualquer motivo explicável ou qualquer motivo à superfície.
Dura algumas horas e é tenebroso.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Abre a boca. Ahhhhh!
Estou farto que me mandes comida para cima, ouviste? Farto!
Estava a contar passar o raio do inverno com as mesmas vestes que usei no inverno passado, mais os dois camisolões que comprei na HM com os 50 euros que a tua avó me deu no Natal.
Mas graças a ti, as minhas roupas duram-me no corpo apenas uma refeição, inclusivamente as Pepe Jeans’s que comprei nos saldos e que gosto particularmente por me aumentarem a auto-estima. Estão todas cheias de nódoas de farinha Milupa boa noite banana e de sopa de vegetais com frango receita da mamã.
Raios, Gabriel! Não és capaz de comer a sopa toda batida sem me sujares?
Que cara achas que eu faço quando o teu pediatra, o Dr Sandro, me olha e diz enquanto eu raspo com saliva um pedaço seco de comida de bebé da gola:
- Tem de comer mais o Gabriel. Cuchi Cuchi Cuchi!
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