sexta-feira, 17 de junho de 2011

Plano de emergência

É relativamente fácil encontrar no Facebook pessoas que deixámos de ver há anos. Se não fosse a geringonça do Mark Zuckerberg dificilmente poderíamos voltar a vê-las. A realidade afasta, a virtualidade aproxima.
Recentemente descobri muita malta do meu passado. Colegas que trabalharam comigo em empregos temporários e muitos amigos de infância que desapareceram sem mais nem menos. É giro poder vasculhar a vida das pessoas assim. Andar a clickar nas fotografias delas e saber o que andam a fazer. O meu cérebro espera sempre encontrar as mesmas fisionomias que gravou da última memória que esteve com elas e é uma decepção perceber que todas estão mais velhas. E toda a gente tem filhos e fotos bonitas em praias e em cidades cliché.
No fundo, há uma enfadonha sensação que comprámos o mesmo set de vida numa loja Ikea.

Lista de coisas que vou fazer este fim de semana para salvar o meu set vivencial
- comprar um extintor
- comprar um transístor e duas embalagens de pilhas alcalinas
- comprar 4 garrafões de água de 5 litros
- açambarcar grandes quantidades de salsichas enlatadas tipo Frankfurt e atum em lata
- afixar os móveis às paredes

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Trabalhos forçados

Amor de mãe é tão profundo que retira o discernimento crítico em relação aos filhos.
Estivemos agora a 70 euros de Táxi de Barcelona para um casamento de família, mas em vez de aproveitarmos os dias de descanso para nos pormos na esplanada em frente ao mar a comer bocadillos e beber cañas nas calmas, passámos o tempo todo a carregar o Gabriel para cima e para baixo.
Alombámos também com os objectos necessários à sua higiene básica, roupa suplente em caso de alguma calamidade e um homem-aranha enorme que atirava teias de plásticos para as mesas vizinhas e, quando se carregava no peito, sonorizava um ihuh que parecia sempre mais alto nos restaurantes, especialmente durante os momentos mais contemplativos dos clientes. Parece-me que não chegou a arruinar nenhum pedido de casamento porque a única pessoa que se ajoelhou fui mesmo eu para apanhar bocados de paella. O juízo abstracto da criança não percebeu o exotismo do arroz amarelo.
Senti-me durante uma semana como se fosse um escravo núbio a carregar pedras para a pirâmide do faraó Quéops. Trabalhar para um bem maior, só que este bem tem uns 80 centímetros e cabe-me no colo.

Fizemos uma pequena lista de afazeres sociais para avaliarmos o comportamento do Gabriel. Acho que a Melissa aldrabou os resultados como se estivesse a evitar um chumbo na secundária e para o poder levar nas próximas férias que passarmos juntos. Ela disse-me:
- Lembra-te que tens o cérebro moldado pela publicidade e pelo estilo de vida que ela vende. Não podes pensar que habitas num anúncio da Kinder ou da American Express e que a vida não dá trabalho nenhum a ser vivida. A única semelhança entre ti e os pais que aparecem na publicidade ao óleo Jonhson & Johnson é que ambos têm filhos lindos e adoráveis. Sinto muito mas a paternidade tem a tecla pause avariada.



sexta-feira, 10 de junho de 2011

As minhas mulheres

Estar com elas dá-me um sentido de origem e de pertença enorme. Olho para elas e sei que conhecem as minhas peças mais antigas. É tão bom lembrar-me das peças mais antigas quando elas estão tão longe.

Estar com elas traz-me o calor húmido da infância passada noutro lugar e com outro jeito de falar, outro timbre também – os delas. Estar com elas dá-me um enorme nó na garganta de vez em quando, porque é tão emocionante fazer parte de algo maior - uma grande família de gente linda, mas especialmente de mulheres lindas e cheias de ganas.

Por incrível que pareça, é só quando estou com elas que não sinto saudades da minha mãe, porque elas viraram a minha mãe de maneiras que não sonham.

Quando estou com elas, estou completa: estou tudo que fui. Estar tudo que se foi dá clareza para o caminho. Por isso, quando estou com elas, sei exactamente para onde vou. Tenho a segurança e o destemor da infância, ao pé delas. É o que evocam – é o que provocam.

(Será que só expatriados sente isto? )

Daqui a poucas horas, uma das minhas mulheres casa com o amor da sua vida, e estarei lá a ver uma peça das novas a encaixar-se no nosso puzzle. Um ramo para a nossa família cheia de ramos. Fico tão feliz por ver isto acontecer. Vejo-o pelos meus olhos e coração, claro, mas acho que a minha mãe também anda aqui pelos meus olhos e coração, vendo tudo e mandando um monte de energia boa.

Caramba, que bom é estar aqui neste dia.

Queria tanto que as outras também estivessem.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Divindades são para respeitar

Hoje passei a hora de almoço a arrumar a minha secretária e as minhas gavetas. Faço sempre isso quando vou de férias mas nunca consigo despachar nada para o lixo. Em casa mando tudo fora, no escritório acumulo toda a tralha que me dão. A Melissa tem um bocadinho de razão quando diz que raramente sou linear, mas eu aqui passo o dia sentado de costas para a janela e fico com o meu Feng Shui arruinado, por isso fico mais débil à harmonia.
Comecei a pensar se existe algum prazo aceitável para guardas coisas que não precisamos. No futuro talvez os objectos venham com um chip de autodestruição que os faça evaporar quando deixam de ser tocados. Splof!

O Matias tinha-me dado, há uns anos, uma imagem da Nossa Senhora D’Ajuda. Acho que é a padroeira de Malhada Sorda e foi simpática a oferta. As pessoas que me rodeiam têm o estranho hábito de me oferecerem coisas para dar sorte. Devem ter qualquer sensação quando olham para mim que, sozinho, não chego a lado nenhum. Uma antiga namorada chegou-me mesmo a dizer que lhe despertava o ar maternal. O princípio químico deve ser idêntico.
Mas sempre que quero despachar algumas coisas que não me fazem falta, fico sempre a olhar para a santinha do Matias. Bem, não tenho qualquer relação especial com ele e nem nos falamos desde que se foi embora, além disso nem sequer sou religioso mas caramba, é uma santa e parece mal mandá-la, assim, embora. Sabe-se lá…

Partilhar

No Verão passado, brincava o meu filho calmamente com os seus tarecos na praia de São Pedro quando se aproxima um miúdo da mesma idade para brincar com ele. Fixe, pensámos nós, the more, the merrier. E aí o menino tira-lhe a pá da mão, e o Gabriel abre o berreiro. O pai do menino aproxima-se e diz ao filho para escolher outro brinquedo (do Gabriel), que é preciso dividir os brinquedos. O menino lá devolve a pá ao meu filho para tungas! Voltar a tirar outra vez. Novo berreiro. Nós vamos na cantiga do pai do menino: Gabriel, partilha lá com o João, dá-lhe lá a pá, brinca lá com o regador, etc, etc, etc, enquanto se sucediam o choro e frustração dele à medida que o João lhe ia tirando coisas da mão e o pai ia tentando educar-lhe para a "partilha".

O momento de chill do meu filho ali na praia tinha-se transformado num autêntico inferno pedagógico, para que diabo? Para que o pai do João ensinasse ao filho as virtudes da partilha? Às custas do meu filho? No way, jose.

Tenho pena de as minhas reacções serem sempre retardadas. Porque vendi um momento fixe do Gabriel ali naquela praia, a troco de nada. Claro que mal percebi isso, pus cara feia e o pai do João bazou logo com o filho para outro miúdo com outros baldes a partilhar.

Há momentos para tudo: para andarem todos à bulha pelos baldes e aí sim, entram os pais na medida do sensato e tentam pôr ordem na macacada - ou não, e há momentos em que os nossos filhos devem, sim, poder desfrutar das suas cenas sem querer partilhar. Porque não? O Gabriel já passa cerca de sete horas por dia a partilhar tudo e mais alguma coisa no infantário, não pode ter o seu momento pessoal, não pode cultivar a sua individualidade nunca? Foi o que aprendi nesse dia: ele tem de ser observado, lido e, sobretudo, respeitado. Não tem de ser "educado" 24h por dia, tem de saber que os pais também lhe reconhecem o espaço, também sabem ver que, às vezes, ele não quer partilhar, e não é por ser malcriado, é por ser indivíduo também.

E da próxima vez que ele estiver na sua, contente da vida a brincar sozinho, e chegar outro menino a tirar-lhe as coisas, vou interpretar o momento tendo-o a ele como prioridade.

E sim, também tento ver quando é o meu filho a incomodar o filho dos outros e desvio a sua atenção.

Há tempo para tudo, caraças.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Inédito

O meu irmão ligou-me agora a perguntar onde almoçamos amanhã. "Almoçar amanhã?", estranhei, não porque não almocemos juntos muitas vezes - pelo menos de 15 em 15 dias vamos ao nosso restaurante de sushi barato na 5 de Outubro - mas porque normalmente parte de mim. Tudo bem, perguntei-lhe onde é que almoçávamos. E ele: num sítio que mamãe gostasse.

Amanhã mamãe faria 56 anos e eu não me lembrei, pela primeira vez desde 2005. Tinha-me esquecido completa e totalmente.

Não imaginam o sabor de vitória que isto teve.
(Quem esteve por cá sabe do que falo).

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Duas curtinhas

- Odeio sonhar com coisas que quero muito. Odeio, dá-me uma sensação de impotência incrível (já disse 800 vezes que não gosto de querer coisas), especialmente quando são coisas estupidamente simples. Mil vezes um pesadelo com cem demónios.

- As minhas grandes amizades são no feminino, nem imagino o contrário. Desconfio de mulheres sem amigas mulheres. No entanto, ontem dei por mim a pensar que só homens conseguem magoar-me, no sentido "surpresa" da coisa (mágoa, para mim, é surpresa. O que estamos à espera não nos magoa). É como se traição fosse algo que eu esperaria de uma mulher, mas nunca de um homem - talvez por ver melhor os fantasmas das mulheres do que dos homens. Será essa a razão? Espero que sim, e não que seja um preconceito idiota qualquer (esperarei para ouvir o que a minha alma gémea analítica, a dona Cê, tem a dizer sobre isto).