sexta-feira, 23 de julho de 2010

A Vó Gnoma

Antes de mais, e para tirar isto do caminho, a Vó Gnoma não se chamava, obviamente, Vó Gnoma, mas eu chamava-a assim de mim para mim, porque ela não devia passar de 1,30 m, andava a passos muito curtos e rápidos e era velhíssima. E porque corre até hoje pelo bairro que ela fazia bruxarias de verdade, daquelas que funcionavam mesmo, o que me deixou completamente apaixonada, porque, pela primeira vez, ali estava diante de mim uma velhota que parecia bruxa e era, de facto, bruxa.

A Vó Gnoma um dia sentou-se numa pedra no quintal e contou-nos toda a sua história, com pretéritos perfeitos e mais-que-perfeitos, com um requinte de pormenor que deixaria as nossas jovens memórias coradas de vergonha, desde que tinha vindo de uma aldeia ao pé de São Pedro do Sul, menina ainda, para limpar casas em Lisboa, e trabalhou toda a vida no duro, indo da Madragoa comprar peixe a Setúbal de madrugada para vir vender de volta a Madragoa ainda pela manhã. E "fazia casamentos". A princípio, achei que "fazer casamentos" era o código para alguma macumbinha básica de amarração, mas não: fazer casamentos era mesmo preparar banquetes em restaurantes. Não havia uma única festinha que levássemos a Vó Gnoma que ela não falasse mal de toda a comida e dos preparos, porque ela sim, é que sabia fazer casamentos.

A Vó Gnoma teve dois maridos. Não maridos oficiais, penso. Mas teve dois companheiros e um filho de cada. Estamos a falar de Portugal da década de 40, não mais do que isso.

A Vó Gnoma morava numa barraquinha. Não, não era numa casa simples, era mesmo uma barraquinha. Minúscula e esburacada. Um dia, perguntei-lhe se queria que eu trouxesse o aquecedor, ao que respondeu: "a minha casa é muito quente, muito quentinha, especialmente o meu quarto!", como se de um T3 falasse, com um orgulho enorme que deitou por terra ali mesmo todas as minhas queixas e insatisfações com a minha vida, redefinindo todo o conceito do que é ser rico para mim.

A Vó Gnoma fez 95 anos no dia em que casámos, e teve um bolo só para ela, com parabéns só para ela e a atenção de 70 pessoas só para ela, com palmas, muitas, muitas palmas de pé, só para ela.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Partilha, gentileza e confiança

Não preciso de mais do que isso para definir um amigo. Amigos são pessoas gentis com quem partilho o meu dia-a-dia de uma forma ou de outra e em quem confio. Não preciso de mais poesia, partilha e confiança para mim já é sólido o suficiente.

Ao contrário da maioria das pessoas que vou lendo pelos blogs afora, eu:

- Tenho uma sorte bestial com os amigos que tenho (vou passar a usar amigas, porque a verdade é que não tenho muitos amigos homens). São umas tipas valentes e generosas, preocupadas e leais.

- Não tenho mágoas passadas nenhumas e é-me fácil confiar nas pessoas. Conto pelos dedos da mão do Lula (menos, até) as pessoas com quem rasgo a alma sem estribeiras, mas não por medo de ser traída ou algo assim, e simplesmente por não gostar de ouvir palpites quando não os peço e isso acontece com mais facilidade depois de momentos de fragilidade (conheço poucas pessoas que sabem enterrar um assunto, eu, pelo menos, ainda estou a praticar). As minhas amigas nunca trairiam a minha confiança, nenhuma das muitas, nunca (fui traída duas vezes por amigas: uma grande, grande amiga dormiu com o homem por quem eu estava apaixonada e outra espalhou coisas terríveis sobre mim por toda a empresa em que trabalhávamos, fazendo-me alvo de bullying constante sem entender porquê. Não, não lhes desejo o melhor do mundo, muito pelo contrário. Desejo que sejam atropeladas diante dos meus olhos).

- Adoro não precisar de uma longa história a dois para usar o termo "amizade". Para mim, um acto de gentileza é um acto de amizade: uma pessoa que me empresta, sem me conhecer pessoalmente, um brinquedo caro da filha para o meu bebé é uma amiga. Alguém que, de longe, me estende a mão num momento difícil é, sem sombra de dúvida, minha amiga. Não preciso do convívio. Não é o convívio que faz as minhas amizades, mas sim, vide título do post.

- Não catalogo as minhas amizades por antiguidade.

- Entendo, aceito e abraço os ciclos. Há alturas em que os melhores amigos andam afastados por estarem em momentos diferentes. Os ritmos de vida mudam. Torço sempre, quando estou separada por um motivo ou por outro de algum amigo, que os nossos caminhos voltem a cruzar-se mais à frente, mas não forço nada. Faz parte.

- Ao escrever este post, pensei que tenho todos os tipos de amigos e amigas, mas que me faltava um: aquele amigo cromo que me acompanhasse nas minhas manias instantâneas que raramente duram mais de um mês. Foi quando me lembrei do meu melhor amigo de verdade, o Hugo. Além de partilhar o dia-a-dia, ser de uma gentileza rara (uma característica de todos os meus amigos homens, por acaso) e saber exactamente quando pode dar bitaites e quando leva com o telecomando na tola, é um excelente companheiro de cromices, e tá para tudo, desde que seja de dia e comece a horas.

Fogo, que sorte. Tenho mesmo muita sorte com todos.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Curtinha sobre a empregada da Carolina Patrocínio

O meu filho não só me obriga a descaroçar cerejas como me cospe as peles depois de as comer.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Avassalada

Lembram-se, minhas amigas mais antigas, dos meus tempos de engonha?
Engonha, engonha, engonha.
Não fazia um cu e, ao fim do dia, vinha uma sensação de frustração tremenda por não ter despachado trabalho, por me deixar corromper tão facilmente por qualquer chamada para um café ou assunto mais interessante - ou menos interessante - no msn? Tão descontente que eu estava comigo mesma e com tudo, queria virar a mesa, queria mudar de dentro para fora, queria renascer uma pessoa que eu não era.

Aí chegou o Gabriel, pondo ordem no meu dia e obrigando-me mais do que qualquer patrão a get my act together. Passei a ir para biblioteca trabalhar, de modo a ter menos acesso a distracções. Passei a acordar mais cedo (como se possível fosse), passei a organizar listas de compras. Passei, aos trambolhões, a ser o mais organizada que conseguia ser.

E perguntam vocês agora: está a correr bem?
A resposta é: não. Continuo com muitas coisas sempre por fazer. A casa está um caos. As vacinas do Gabriel estão atrasadas. Tenho de o levar ao dermatologista. Tenho de tirar o cartão do cidadão. Tenho de o inscrever, e ao Hugo, na minha médica de família.


Isto para não falar do meu médico, do meu dermatologista, do meu cartão do cidadão, da minha vida.

Pergunto-me se me sentirei sempre assim, avassalada. Ou pela engonha, ou pelo excesso de coisas, mesmo. Tenho muitas coisas para fazer, muitas. Sou o coelho do Cais do Sodré.

PS - O tal livro "Get Your Act Together" anda a render umas boas gargalhadas. Excelente para aumentar a autoestima dos que sofrem de défice de organização. Vá lá.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Esta tocou-me

Nunca divulguei causas, mas acho tão bonito senhoras assim., de portas sempre abertas e sempre a pôr mais água no feijão para mais uma boca. Conheci algumas, e merecem tudo.
Agir localmente, pensando - ou não - globalmente. Mas agir localmente é sempre bom.

Esta pequena família adoptou a obra da tia Preta como sua causa.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O futuro começa AGORA

Porque, como a amiga Anacê, a amiga Carla e mais uma catrafada de boas amigas dizem, eu sei o que está mal. Ter este tipo de clareza é uma sorte do caraças (e não, não estou a falar de perder peso desta vez, não desta vez, não objectivamente, pelo menos) e já chega de pouco amor. É preciso mais amor.

Uma mudança para melhor de cada vez. Começa agora, com um plano, como eu gosto.

A primeira mudança: vou brincar com o meu filho concentradamente todos os dias. Ando muito, muito distraída e ele não para de crescer diante dos meus olhos.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Felizmente são cada vez menos

Mas há dias em que só quero a minha vida a dois de volta, sem passar 99% do meu tempo extra-trabalho a correr atrás de um bebé incansável, poder sonhar com um livro à beira da piscina nas férias, que luxo, santo Deus.
Arre, que nem consigo ansiar por Agosto, assim.
Xô, baixo-astral.

Update: já pedia muita ajuda, mas vou passar a pedir ainda mais. Queria ser daquela raça de mãe para quem tudo é uma alegria e natural, ai como é bom ter bebés, tantos bebés, que venham mais bebés. Não sou. Isto cansa-me à brava.
E para quem pensa que me queixo muito, sim, queixo-me mesmo muito, e ainda me vou queixar muito mais.

Conversa que tive no FB com o meu irmão agora:

Eu

a nossa vida neste momento é:

acorda 6h30, pequeno-almoço do bebé, bebé, bebé bebé até deixar o bebé na creche

dp trabalhar até à hora de ir buscar o bebé

dp bebé bebé bebé até ele dormir

dp casa até desmaiarmos

no fim de semana muda para

bebé bebé bebé bebé bebé beb
é


Update 2: e quando me sinto assim, COMO.