quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A fábula preferida do papai - "esta é a minha natureza"


Certa vez, um escorpião aproximou-se de um sapo que estava na beira de um rio.
O escorpião vinha fazer um pedido:

"Sapinho, você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão largo?"

O sapo respondeu: "Só se eu fosse tolo! Você vai me picar, eu vou ficar paralizado e vou afundar."
Disse o escorpião: "Isso é ridículo! Se eu o picasse, ambos afundaríamos."
Confiando na lógica do escorpião, o sapo concordou e levou o escorpião nas costas, enquanto nadava para atravessar o rio. 
No meio do rio, o escorpião cravou seu ferrão no sapo.
Atingido pelo veneno, e já começando a afundar, o sapo voltou-se para o escorpião e perguntou: "Por quê? Por quê?"
E o escorpião respondeu: "Por que sou um escorpião e esta é a minha natureza." 


Acho incrivelmente inspirador para quem escreve ficção.

A causa que eu não tenho (já falei nisso, mas já falei sobre tudo, portanto...)

Se ele sonha com monstros, não perco metade da noite a dizer-lhe que os monstros não existem (quando, claramente, para ele existem). Vem para a nossa cama a tremer de susto e relaxa todos os músculos em 20 segundos.

Acho natural e acho bom. Não tenho a menor pressa de lhe ensinar que monstros blablablablabla quando eu própria padecia de terrores horrorosos quando dormia sozinha - e ainda padeço.

Claro que se a coisa perdurar muito ou se agravar, logo vejo. Encontrei isto, li na diagonal, achei giro para crianças mais velhas.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Pequenas retificações

Há um período na minha vida que considero um pouco como "anos perdidos": andava à procura de mim mesma no Brasil e tudo que consegui foi afastar-me ainda mais de mim, e o resultado, no grande esquema das coisas, não foi bom. O mais provável é nunca vir a elaborar sobre isso aqui, porque 1) é uma época meio nebulosa, para mim, e 2) morreria se algum amigo dessa altura viesse aqui e interpretasse mal o que digo, porque isto não tem que ver com pessoas, tem que ver comigo num período muito difícil da minha adolescência e das minhas relações familiares e 3) acho que magoei pessoas que amo muito e que cá ficaram. Mas adiante, falávamos em anos perdidos.

No grande esquema das coisas, o lucro não foi grande. Diante da encruzilhada, entrei pela direita e mais valia ter ido pela esquerda. Mas aí tropeço numa canção que pode soar a breguice lamechas a qualquer ouvido, mas, para mim, traz todo o perfume dos anos perdidos, e o perfume não é mau. É perfume de sol quente, de dançar e cantar no meio da rua sem pudor, de ônibus lotados, de risos, de cerveja muito gelada e caranguejo, de praia durante todo o ano, de mãe, de tudo que já não existe e que passou.

Os anos perdidos podem não ter sido uma perda completa. Acho que ainda hei de os entender, um dia. Mas hoje não, hoje é só perfume.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A Concorrência

Há que ter um bom par deles para abrir uma gelataria a 20 ou 30 metros do Santini, mas foi o que fez o senhor estrangeiro incrivelmente simpático da Concorrência (é como a chamamos, aliás, era como eu a teria chamado, se fosse minha). Desde que lá fomos pela primeira vez que ficámos fãs. Em vez de estarmos numa fila impessoal e altamente eficiente uns passos acima, ficamos para ali a decidir entre os sabores estranhos (Scrock? O que é scrock? Qual é a diferença entre o de chocolate e avelã e o de nutella?) enquanto falamos com o senhor estrangeiro incrivelmente simpático que faz aqueles gelados todos os dias, com muito pouca ajuda. O meu irmão chega a experimentar TODOS os sabores e a única cara feia que leva é com a minha.

O Gabriel só paga um euro (há preços especiais para crianças e velhotes) e come sempre o de cuxulate.

Claro que aquilo nem faz cócegas aos sovacos do Santini, mas noto cada vez mais gente de cada vez que lá vou, que é o tipo de coisa que nos deixa contentes, para quem já nos conhece. E acho que o simpático do gringo está a realizar um sonho. Tal como a senhora do Starbucks, o homem está para ali de alma lavada, feliz da vida. Creio que trocou um emprego chatíssimo por aquele.

Há que ter um bom par deles.

domingo, 19 de agosto de 2012

Quando a magia acontece

Leitura é telepatia, disse Stephen King no maravilhoso e divino On Writing. O escritor manda uma cadeira de lá, nós recebemos a cadeira cá: ele dá uma parte do caminho, nós damos a outra. E temos cadeira. A magia acontece.

Há uns dias, uma amiga disse-me no Facebook qualquer coisa sobre A Sombra do Vento e eu disse-lhe que ainda ia na página 67 (e tinha começado a ler três ou quatro dias antes, sou uma leitora lenta). Ela respondeu-me: então ele ainda não te hipnotizou. Pensei: hum, há muito tempo que as interferências do dia a dia não deixam que livro nenhum me hipnotize. Posso gostar muito, posso até lê-lo avidamente num dia que tenha livre, mas hipnotizar, não. A última vez que um livro me tinha hipnotizado tinha sido na adolescência.

Ontem, por volta das 22h, o Sr. Zafón entrou em telepatia comigo. Ia na página 150, 180 de um excelente livro e estava rendida a tudo: estilo, tema, personagens, cidade. Que livro do caneco. E continuei a ler. A magia acontecia.

Por volta da 01h, creio eu, completou-se a hipnose. Eu já não era eu, eu era um canal aberto para aquela história meio gótica, cheia de ecos e matrioskas e personagens incrivelmente gentis. Já não julgava, já não formulava. Simplesmente deixava-a entrar.

Às 02h24 (olhei para o relógio) tinha um leve soninho e fui à casa de banho. Voltei e pensei que o feitiço se tinha quebrado, até o autor me arrebatar com uma frase enlouquecedora e me puxar para um estado de total alerta mais uma vez. E segui em frente. Sentia umas coisas na barriga que devia ser fome, mas até isso (fome!!! Fome a sério!!!) não tinha importância nenhuma. Importante era o canal aberto. Importante era saber mais.

Não terminei o livro, deixei cerca de 40 páginas para hoje. Acabei por o fechar numa luta de mim contra o transe, em que ganhou o bom senso. Às oito, como todos os dias, estava de pé. Não sei quanto dormi. Mas não sou tipa de insónias, preciso do meu descanso e hoje estou como se tivesse sido passada por um rolo compressor depois de beber um litro de vodca.

Mas ninguém me tira o que vivi de madrugada, eu e eu somente, e que sei lá quando vou voltar a viver. O contrário de habitar o presente, ou a sua própria definição. Um prazer absoluto na ausência ou na presença.

Passei o dia podre, mas muito, muito feliz.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Um marketing que nos cairia bem

Depois de pormos o Gabriel no bengaleiro de crianças do shopping, fomos beber um cafezóide fashion de 90 cêntimos ao Starbucks. Fomos atendidos por uma senhora já bem passada dos cinquenta, com um sotaque fortíssimo de uma região que não identificámos, e lá repetia o texto starbucks que todos os empregados repetem, mas com uma diferença: um sorriso verdadeiramente genuíno (passe o pleonasmo) e uma alegria em mostrar bolos e servir amostras de bebidas coloridas.

"A senhora está mesmo feliz de estar cá", disse eu ao Hugo, depois de uns minutos a vê-la despachar trabalho. "Deve ser o primeiro emprego dela em muito tempo. Ela já devia ter perdido a esperança".

E depois pensámos que era um marketing que funcionava lindamente conosco, este de se, em vez de contratarem putos para darem uma cara jovial à empresa, contratassem senhoras despedidas do setor fabril ou do diabo. O nível de consciência social hoje em dia é outro, todo mundo sabe o que se passa e todo mundo gosta de ver soluções. Sim, eu sei que os jovens precisam de trabalho, mas se para um jovem trabalhar num Starbucks é uma solução de recurso ou um "começar por baixo", para um tipo quase na idade da reforma pode ser um milagre. Um renascimento.

Não sei se era esta a narrativa da senhora contente do Starbucks, mas qualquer outra que me ocorria era igualmente boa e válida. E qualquer uma delas far-me-ia gostar de ver mais senhoras (e senhores) a perguntar-me se quero uma bebida gelada à base de café e uma das nossas queijadas para acompanhar. E far-me-ia voltar, mesmo pagando as cuecas por um café bem ruinzinho.