sábado, 31 de dezembro de 2011

Taking the Leap



Já que o ano vai ser de dureza, que tal dar uma de "morto por cem, morto por mil" e dar o salto, seja que salto for? É a minha sugestão de menu para a noite de hoje: pensar o sonho, pensar no primeiro passo em direção ao precipício.


Um 2012 de Louco para todos, é o que desejo.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Coisas que não escrevi em 2011

Adoraria ter a capacidade de desenvolver temas organizada e inteligentemente como alguns bloggers que por aqui andam, mas é difícil! Cada vez sou pior a encadear pensamentos, sai tudo sempre muito caótico e palavroso e emotivo demais. Autodiagnostiquei-me com um leve ADD (com a ajuda da Internet).

Enfim, queria ter escrito sobre uma série de coisas que não escrevi (por N razões), e deixo aqui algumas delas. Pensei e não escrevi

- Sobre coisas que eu dizia enquanto não era mãe e que caíram por terra.
- Sobre a delicadeza que, num segundo casamento, a pessoa que chega deve ter para não desequilibrar a dinâmica familiar (e não se tornar odiada).
- Sobre a dureza da reprogramação mental depois de uma perda, por mais pontos finais que coloquemos ao luto.
- Sobre inspiração, de onde ela vem.
- Sobre quem eu e o Hugo éramos quando nos conhecemos.
- Sobre algumas coisas feias que não consigo evitar sentir.
- Sobre o ginásio em que ando agora, que adoro e que é diferente de todos os outros em que já andei.
- Sobre o aceitar o lado negro das pessoas e aprender onde pôr o limite.
- Sobre o café do Manel.

Os melhores do ano

Sei que a massa leitora anseia o ano inteiro por este momento, por isso, aqui vai o resultado. Eis o melhor filme do ano para este casal:

O segundo lugar do Hugo:

O segundo lugar desta que vos fala:

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Bebegugrafia - 3

Bem, agora que se aproxima a tua grande apresentação ao mundo, a tua mãe padece de dores. A culpa aparentemente é tua que andas lá dentro dum lado para o outro a abalroar tudo o que consegues. Os ossos, o estômago, os rins, os intestinos e os dentes, embora desconfie que a dor que a tua mãe tem neles não seja responsabilidade tua, mas já que existes, é bom ter um bode expiatório para os males que surgem na família.

Estamos um bocado ansiosos com a chegada e o nosso coração bate mais depressa. Podes ficar descansado, no entanto, que já te comprámos tudo. Nem te passa pela cabeça a tralha que entrou em casa. Não temos espaço para mais nada e andamos desejosos que cresças para vendermos as tuas coisas de bebé cheio de peneiras a futuros pais. Só em roupa deves possuir, sem querer exagerar, mais peças que o teu pai e a tua mãe juntos. E olha que a tua mãe…

Aos poucos lá vamos percebendo que a nossa vida vai mudar mesmo imenso. A tua também, não penses que vais estar aí no fofinho e quentinho o resto dos dias e, aviso-te já que, se a temperatura cá fora continuar assim, vais passar por um mau bocado, isto apesar da carrada de aquecedores Becken que comprámos na Worten a 34,95 euros cada.

Uma informação importante para ti é que o teu pai e a tua mãe são doidos por cinema. Convém que saibas já isso porque a determinada altura da tua vida vais tomar consciência de seres depositado aleatoriamente em casa de amigos e familiares por 3 horas para que os teus queridos progenitores possam ver um filme ou outro. Era bom que não lhes desses muito trabalho nessas ocasiões.

Só para tu veres a vida dos teus pais a mudar, ontem, enquanto víamos as apresentações de filmes antes da nova fita do mestre Eastwood, os namorados enroscavam-se e diziam despreocupados uns aos outros, Oh amor temos de ver este, Oh querida este é que deve ser bom.

O teu pai e a tua mão pegaram na barriga que é a tua actual casota e comentaram:

- Achas que ainda conseguimos ver este?

- Hum…Parece-me que este tem de ser no Blockbuster...


19/01/09

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Bebegugrafia - O maior

A tua prima Adriana nasceu no dia em que o Benfica venceu o Sporting por um zero, depois dum voo glorioso do Luisão que cabeceou a bola para dentro da baliza enquanto o Ricardo, Guarda-redes do Sporting na altura, se queixava duma falta. Gesticulou e gritou com vigor com todos os que lhe apareceram à frente até ficar sem voz com a gritaria e, por fim, percebendo que o árbitro não ia voltar atrás na decisão, lá foi para a baliza amuado e desgostoso com o futebol português. Se estivéssemos numa escola primária e a bola fosse dele, acabava com a jogatana logo ali.

Se foi falta ou não, não sei. Nos programas de televisão da semana seguinte discutiu-se muito e como sempre nestes casos, os adeptos do Sporting defenderam a falta e os do Benfica apregoavam a legalidade do lance. O Ricardo telefonou para todos os debates que pôde a dar a sua opinião, que não foi frango nenhum e que foi abalroado pelo gigante defesa benfiquista. Chegou a jurar por todos os santos, numa voz abatida e magoada dum menino de 5 anos a quem não lhe foi feita uma vontade, que a culpa não foi dele. Que a verdade desportiva foi vilipendiada mais uma vez e com claros prejuízos para o emblema de Alvalade.

O Benfica foi campeão nesse ano, era treinador o Trapattoni, e dentro da nossa família é evocada a efeméride sempre que se recorda a azáfama do dia do seu nascimento, normalmente nos jantares de Natal. Por isso, esse acontecimento vai estar sempre presente na vida da Adriana. Quando nasceu, o Benfica ganhou ao Sporting e foi campeão umas semanas depois. E olha que já não ganhávamos há 13 anos. Grande Adriana!

Isto para te dizer que no próximo Sábado, quando nasceres, também vai ser dia de Derby. Claro que isso implica que, contigo por perto, o teu pai não se vá pôr beber cerveja como um animal, nem chamar nomes maldosos ao árbitro. Não te quero dar um mau exemplo logo na primeira noite. Se estiveres acordado na altura, o que duvido, irás ver um progenitor calmo, consciente das suas funções e bastante civilizado quando confrontado com as vicissitudes normais duma transmissão futebolística. Poderás respirar de alívio face ao que te calhou em sorte.

Mas gostava que a tua vinda ao mundo seja marcada, tal como a Adriana, por uma boa notícia. Eu nem sequer me vou importar muito com o clube que escolheres. Para mim é-me igual ao litro. Prometi não me imiscuir nesse procedimento e, se queres que te diga, vou cumprir a promessa. O teu Avó, o meu pai, teve sempre uma atitude cool nesse assunto. Não se meteu e acabei por ser do clube rival. Mas o problema resolveu-se, levava-me aos jogos do Oriental. Se fores Sporting ou Porto levo-te aos jogos do Olivais e Moscavide que sempre são mais baratos. Pronto, está decidido. Mas duvido que tal venha a acontecer, o meu padrinho, o Pedro, já fez saber que não vai descansar enquanto não disseres a palavra mágica. Leve o tempo que demorar.

A tua prima Adriana, por exemplo, foi desde cedo ensinada a dizer Benfica sempre que ouvisse a pergunta “Quem é o maior?” E olha que nunca se enganava quando espicaçada para a habilidade.

Um dia, estava eu em amena cavaqueira com ela, tentando perceber a esperteza da miúda e no meio da averiguação pergunto-lhe quem era o maior, se a Girafa se o cão. A resposta veio na ponta da língua:

- O Benfica!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Bebegugrafia - os anos do Metal

Os anos do Metal foram talvez aqueles em que o teu pai se sentiu mais feliz em toda a sua vida. Não pretendo com isto desfazer do teu nascimento nem das emoções que senti com ele, mas a verdade é que a felicidade, pelo menos para mim, sempre esteve inversamente proporcional à responsabilidade que uma pessoa possa assumir para si própria. Estou convicto que nada é melhor nesta vida do que não ter que pagar hipotecas a bancos estropiados, não trabalhar uma única hora ou poder ter a liberdade de evitar fazer compras Sábado de manhã num hipermercado apinhado de gente infeliz.

Seja como for, o conceito de responsabilidade como deves talvez imaginar, era coisa que não fazia parte do meu juízo quando tinha os meus 14 anos. As únicas coisas que realmente os meus pais me exigiam eram que passasse de ano e não rompesse as calças nos joelhos a jogar à bola. Hoje, aos 36 anos, este grau de exigência até me faz sorrir enternecido, mas na altura, confesso, tanto uma condição como outra eram bastante difíceis de cumprir.

Foi então que, no meio deste idílio vivencial, nos finais dos anos 80, que o teu pai começou a ouvir a música que todos os rapazes dos subúrbios ouviam na altura. Era o chamado Heavy Metal que simbolizava, para todos nós que o sentíamos, a afirmação duma certa individualidade não só perante os nossos pais mas, também e essencialmente, perante uma sociedade que se preparava para nos começar a cobrar comportamentos e condutas que não estávamos muito interessados em seguir.

Imbuído neste espírito contestatário, comecei a detestar todos os artistas que não se vestissem de preto, não tivessem cabelo cumprido ou cujo aspecto não fosse assim a dar para o ameaçador. O Heavy Metal era uma música feita por chungas para chungas e convenhamos, agora que passaram 20 anos, o teu pai não era propriamente um beto da linha de Cascais.



O primeiro grupo que comecei a gostar foi, claro, dos Iron Maiden. Todos os dias alguém levava um álbum deles para a escola e emprestava-o ao seu semelhante. O dono do disco era sempre um homem tido em grande conta e possuir um exemplar dos Iron Maiden era um símbolo de status quo nada negligenciável. Claro que em contrapartida o vinil andava a rondar pela turma toda e quando chegava às mãos do dono, presumo que não viesse nas melhores condições, mas isso, como os jornalistas gostam de chamar, era assunto tabu. Apesar de 1988 terem lançado o Seventh Son of a Seventh Son, um disco baseado num livro de Orson Scott Card sobre uma criança com poderes de vidência, era o mítico Somewere in Time, lançado em 86, que tinha mais êxito entre os putos. A explicação é simples. Além de ser um disco melhor, embora seja apenas a minha opinião baseada no meu gosto que tanto na altura como hoje não é de fiar, a capa dele era absolutamente fantástica. Nela via-se o Eddie (a mascote ameaçadora do grupo) de pistola de lazer na mão a passear pelas ruas de Londres num futuro longínquo. Era impossível aos 14 anos não se ficar vidrado naquele desenho e a desejar, não só, ter o disco, como também formar logo a seguir uma banda de Heavy Metal. Este foi o primeiro álbum que ouvi dos Iron Maiden e também deste estilo musical. Fiquei fascinado, claro, e aqueles solos da guitarra do Adrian Smith ou do Dave Murray mexiam comigo e, quanto mais alto os ouvia, mais louco ficava. Abanava a cabeça com força e tocava na guitarra imaginária imitando, na medida do possível, as posições do solo. Era um orgasmo performativo purificador para mim mas um motivo de preocupação para a minha mãe que passava os dias a trabalhar para me proporcionar algum futuro. Mantenho o sonho de ver um espectáculo deles ao vivo um dia destes. Os Iron Maiden para os machos com mais de 32 anos e suburbanos foram os Rolling Stones dos anos 70 e todos eles conseguem cantar de fio a pavio músicas intemporais como o Wasted Years ou o Stranger in a Stranger Land ou mesmo a reconhecer de imediato o solo melancólico inicial do Alexander the Great.



Mas nem só de Iron Maiden vivia o som pesado.

Mais rudes e sujos eram os grandes Manowar. Em 1988 lançaram o seu melhor disco de sempre, Kings of Metal. A grande potencialidade dos Manowar residia no ambiente gótico que conseguiam criar em todas as músicas. As suas canções estavam pejadas de reis que perseguiam o seu destino percorrendo o tortuoso caminho que os levava ao trono lado a lado com a morte, com as mulheres e a fiel espada cujo aço era normalmente lambido a sangue dos inimigos. Por outro lado havia uma analogia interessante entre o cavalo, o ferro das espadas e as Harley Davidson o que os tornava bastante populares entre os motoqueiros. Não era de estranhar que algumas músicas começassem com sons de batalhas, motores a acelarar e gemidos femininos de prazer. Um dos pormenores interessantes do grupo era que todos os elementos rapavam os pêlos do peito o que lhes dava um ar asseadinho nas fotografias que normalmente víamos nas páginas dedicadas ao rock pesado da revista alemã Bravo. Como vês, razões de interesse eram o que não faltavam a estes senhores que se vestiam de cabedal. Em relação à indumentária que se usava entre os metaleiros o teu pai, por muita pena dele, nunca seguiu a tendência. É que os teus avós não me deixavam usar ganga apertada, pulseiras de caveiras, botas ténis e muito menos o cabelo cumprido. No entanto, e é muito importante frisar isto porque ainda hoje tenho orgulho nisso, o teu pai era o único puto a usar uma cruz de Cristo invertida feita com crachás de bandas de heavy metal. Claro que só formava a peça após sair de casa para não ser repreendido, mas recebia muitos olhares de aprovação dos meus semelhantes e isso fez crescer sobre a minha pessoa uma aura de mistério que muito me agradava. Repara que, tal como agora, o teu pai teve sempre um aspecto jovem e naquela idade tinha um físico dum garoto de 11 anos. Olhar para mim com aquela crucifixo invertido ao peito deveria ser um espectáculo algo macabro para os transeuntes. Mas enfim, a necessidade de afirmação tinha de ser preenchida de alguma forma.



De entre todos os artistas da pesada que apareceram, destacaram-se os Metallica. Talvez sejam aqueles que ainda preservam a fama embora, infelizmente para os fãs da velha guarda, pelas piores razões. Mas a honra de terem feito o melhor disco de Heavy Metal de todos os tempos ninguém a pode tirar. Chama-se …and justice for all e é um portento eléctrico. Foi graças a ele que o teu pai começou a ter a panca de escrever a palavra MetallicA em todos os cadernos e em todas as mesas em que se sentava na escola. Era lindo e reconfortante prolongar a perna do “M” e a do “A” como na capa dos discos. Devo-te dizer que graças a este disco comecei a ter uma sensibilidade musical mais apurada que me permitiu, aliás, descobrir novas sonoridades e novos projectos fora do circuito mainstream das rádios da moda. …and justice for all é uma orquestração esplendorosa onde todos os instrumentos se encaixam como uma sinfonia. O disco em questão é ouvido amiúde no meu MP3 e digo-te que é dos poucos que me faz bater o pé e abanar a cabeça nos transportes públicos e um dos melhores discos que ouvi em toda a minha vida.

Apesar de tudo havia uma certa incongruência na minha existência de então que tenho de confessar aqui publicamente. É que apesar de venerar os Iron Maiden, os Manowar ou os Metallica, ouvia às escondidas os Wham e todas as semanas via o Top Gun que foi o filme que, de longe, mais vi até hoje. Qualquer dia tenho de te escrever também sobre estes dois marcos da minha história.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Bebegugrafia - 4 - dia do Pai

Algumas coisas que precisas de saber sobre ti no meu primeiro dia do pai:



Comes sempre de 3 em 3 horas, independentemente da quantidade de Mc Leite Nestlé que te tentarem enfiar pela goela abaixo. 180 minutos é a unidade de tempo pela qual a tua existência de bebé se rege. Nem mais nem menos. Por isso é que andas a engordar em média 46 gramas por dia. Pelo menos é o que o médico diz depois de chegar a esse valor na sua calculadora amarela Aptamil fabricada na China:

- Uh lá lá!

Dica de pai: Companheiro, a tua vida não vai ser sempre um rodízio permanente, por isso, para o teu bem, é bom que te vás habituando a refeições ligeiras, embora concorde que os rodízios não sejam maus desde que, por contas feitas de cabeça e assim por alto, se coma mais do que se pague. Mas não podes fazer disto um estilo de vida.



Uma das tuas características é chorares apenas quando tens fome. Podemos estar aborrecidos contigo e chamar-te todos os nomes que não te importas nada com a humilhação. Podemos até te levar para o paredão, para os jardins e para os restaurantes de má fama que não soltas um único pio. Agora há um preço a pagar por esse reconfortante pragmatismo comportamental. É que mal sentes um leve ratito nesse teu estômago minúsculo, que só a custo aguenta 120 mililitros de Mc Leite Suíço, desatas num berreiro tal que duvido que algum dos nossos vizinhos não saiba que chegou a tua hora de repasto. A Sofia do 1º andar confidenciou-me que já nem se preocupa em programar alarmes para acordar às sete da manhã. É que o seu despertar para a labuta coincide, por graça divina, com o teu primeiro biberão do dia.

De forma a te manter feliz, os teus pais vão fazendo alguns progressos para reduzir o tempo do escarcéu. Um biberão anti-cólica Dr. Brown com pega ergonómica, que nos primeiros dias demorava quase 5 minutos a ser preparado é agora aviado em 36,2 segundos pelo pai e 43,7 pela mãe. Vai ser bastante difícil superar estas marcas, mesmo que os chineses entrem na corrida.

Agora explica-me uma coisa, que ando curioso. Desde que nasceste já te fizemos, assim por alto, duas centenas de refeições. O processo é sempre igual. Pá, tu estás a ver-nos ali ao teu lado a mexer no termo, no biberão e na Mc Lata, exactamente da mesma forma como das outras vezes, porque raio pensas que desta não te vamos enfiar a tetina na boca? Achas o quê? Que vamos fugir com 90 mililitros de leite instantâneo debaixo do braço às 4 da manhã?

Meu, percebo pouco de bebés e nunca tive de alimentar um cão ou um gato, mas aposto que os animais de estimação compreendem um sistema simples desta natureza numa semana.



Gostas que te troquem a fralda Dodot etapas nº2 após a refeição, especialmente se adormeceste aos 40 mililitros (outra mania tua). Isso é montes de chato. Repara que a tua fome não é directamente proporcional aos decibéis com que castigas o mundo. Se o teu cosmos de bebé fizesse sentido, com a algazarra que costumas fazer, era de prever que só te consolasses depois de beberes uma litrada. Agora adormeceres a meio biberão, por amor de Deus! Ao menos podias respeitar um pouco quem te alimenta e passar pelas brasas no final, depois de expulsares o teu Mc Arroto.

Em relação à fralda. Apesar de seres querido, redondinho e absolutamente adorável, o teu cocó, e ao contrário da ideia que dás quando se olha para ti em especial quando bocejas, cheira realmente muito mal e não é agradável estar por perto nessa altura. Isto só prova que não se devem julgar as pessoas pelas aparências.

Aproveitando a onda, deixa-me dar-te só mais uma informação estatística. A média de banhos que tomas com a tua própria urina é neste momento de 1,3 por dia. Só para veres como são as coisas, nos primeiros três dias o ratio era de 4,5. Isto demonstra bem a forma como os teus pais estão a progredir nas suas tarefas parentais.



O teu gosto musical é neste momento muito melhor que o da tua mãe. Gostas dos concertos de Brandenburgo de Johann Sebastian Bach, das partituras mais emblemáticas de Mozart, dos concertos para violoncelo de Handel e o concerto para o príncipe da Polónia de Vivaldi. Aprecias também Diana Krall e algum Acid Jazz, não todo.

A tua mãe, que não pode ver nada, quando eu voltei a trabalhar, aproveitou-se do meu infortúnio para te iniciar nas músicas mexicanas das telenovelas dos anos 80.

E ainda por cima cantou-as todas. Acho que não merecias e por isso fui obrigado a tirar férias à pressa.



Uma coisa porreira é que, se andarmos contigo atrás, poupamos imenso tempo nos balcões dos serviços públicos. Na Segurança Social somos atendidos em 15 minutos, no Registo Civil 10 minutos e nas finanças 20 minutos. Já viste? Além disso o Jumbo, por tua causa, oferece-nos um ano de entregas grátis. Como se fosse pouco ainda temos lugar reservado nos estacionamentos e até nos deixam passar nas caixas de supermercado. Além disso és a desculpa perfeita para nos livrarmos de convites sociais de baixa motivação.

E repara que és capaz de nos proporcionar isto tudo enquanto dormes. Nem quero imaginar o que serás capaz de fazer quando estiveres acordado e aos berros.



É um facto que a vida dos teus pais mudou imenso. Nem imaginas. Tudo diferente. Mas ao contrário do que se poderia pensar, sentimos uma total e libertadora sensação de alívio. A partir de agora tudo perde a importância que costumava ter. As coisinhas enfadonhas e desgastantes da vida deixam de fazer sentido. Apenas nos concentramos em ti. Deixou de ser relevante aonde vamos jantar, com quem, o filme que queremos ver, a quem telefonamos, qual o shopping onde vamos fazer compras, a necessidade de comprar umas calças ou uma camisa, as chatices laborais, a mesquinhez humana e, para ser sincero, nem sequer sabemos o que se passa no mundo. Nem a crise nos perturba e até, quando o Cavaco surge na televisão, já não mudamos de canal nem nos interrogamos como é que alguém como ele chegou a presidente da república.

Se queres que te diga, nem imaginava o quanto a vida poderia ser tão motivante e agradável. Quando acordei e te fui ver ao berço, estavas a dormir todo fofinho na tua posição de bebé com uma prenda maior do que tu ao lado. É disto que falo. Bem, hoje é dia do pai e parece-me que, desta vez, sou eu que estou de parabéns! Só gostava de saber aonde arranjaste dinheiro suficiente para comprar a t-shirt Pull and Bear que me ofereceste.