quinta-feira, 21 de abril de 2016

Vagueposting

Adoraria saber como vou olhar para este último ano daqui a dois anos.
É que adoraria, mesmo.

Lembro-me pouco, muitíssimo pouco do ano que se seguiu à morte da minha mãe. Provavelmente porque estava ocupada a comer.

Neste ano (que para mim começou em julho do ano passado e não vejo honestamente a hora que acabe, embora não lhe veja fim à vista), foi o contrário, perdi quase 30 quilos e todos os problemas que se escondiam por trás da obesidade viram a luz do dia. Não só os problemas que se escondiam atrás da obesidade. Às vezes penso que todos os problemas do mundo resolveram ver a luz do dia (e imediatamente envergonho-me do pensamento, já que o que verdadeiramente interessa - eles, sempre eles -, estão bem. Não falta nem saúde, nem dinheiro. Devia bastar. Mas não basta.)




terça-feira, 22 de março de 2016

Os 40 que chegam dentro de uma semana, mais coisa menos coisa

Bem se podiam ter passado 10 anos entre o meu último aniversário e este. Tanta coisa aconteceu nos últimos meses, tantas tempestades e tumultos que me apressei a rotular como perdas irrecuperáveis, irremediáveis. Não podia estar mais enganada.

O tempo continua a ser de transição, mas já tenho alguns apontamentos. Chego aos 40

- Com menos certezas do que aos 39, o que acaba por me dar
- Uma noção mais clara do que importa, e muitíssimo pouco importa.
- Uma forte sensação de que tudo é transitório, inclusive as pessoas na nossa vida.
- Que o nosso valor é intrínseco.
- Que não precisamos de nos esforçar, o que é bom e natural emerge.
- De que é mais fácil render-se ao ego do que tentar derrotá-lo, todos nós queremos ser amados e a vida torna-se mais fácil quando aceitamos isso.
- Com uma noção muito clara de que controlamos muito pouco.
- Grata. Chego aos quarenta muito grata por tudo.

E adoraria falar sobre estas coisas com a minha mãe. Creio que ela tenha chegado às mesmas conclusões no ano da doença. Dez anos separam-nos neste momento, já não podíamos ser mãe e filha. Seria tão bom conversar com ela sobre estas coisas todas.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Times, they are a changing

À porta da escola do Gabriel, sai do carro uma mãe de pijama babygrow de tigresse da Primark, abre a porta ao filho, beijinho e adeus. Há um ano, eu acharia aquilo a coisa mais engraçada do mundo, gozaria, mandaria umas mensagens a amigas, etc etc.

Hoje só me ocorreu que a mulher deve ter feito o turno da noite, foi pôr o filho à escola a horas e voltar para a cama antes de pegar no batente outra vez.

Gostei mesmo muito deste pensamento-reflexo. Se faz de mim uma pessoa mais chata, que seja - o bem que daí vem é maior.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Era para escrever sobre Space Oddity, mas antes disso

Ando a perder demasiado tempo a correr atrás das pessoas erradas, ou pelo menos as pessoas erradas para este momento - ou para quem eu seja a pessoa errada, não sei.

 E o tempo que passo a correr atrás das pessoas erradas (ou... ou...), deixo de ver os bons dias e os links "isto é a tua cara" e as carradas de carinhozinhos das pessoas que foram sempre certas, as sedimentadas - as minhas pessoas. Ando negligente com muitas delas, e evidentemente só quem perde com isso sou eu.

Devo ter por aqui um mecanismo de vitimização esquisito que me faz correr atrás de patadas e silêncios. O que me faz pensar noutras pessoas a quem, por um motivo ou por outro, só ofereci o meu silêncio e patadas discretas quando procuravam a minha atenção.

Meio chatos, esses desencontros.
Porque o que importam são as pessoas, sempre e incondicionalmente.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Demorou, mas chegou

A proximidade dos 40 anos também me trouxe uma característica que nunca pensei que fosse desenvolver (até porque nunca foi uma vontade minha): não me esforço mais para agradar ninguém. Acabou-se o charme, acabou-se o esforço. Aqui está o conjunto completo montado desde 1976, nem um sorriso extra.

Tem sido algo muito natural, como ter percebido que as pessoas afinal podem ser más só porque sim. Talvez tenha sido uma consequência disso. Mas para quem sempre andou em esforço para agradar gregos e troianos, esta nova forma de estar é bastante relaxante.

Só não é completamente relaxante porque ainda não cheguei ao ponto de não me chatear quando não agrado, mas terá de acontecer, certo?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Quando a maturidade não falta

Tendo passado a maior parte dos últimos meses na mó de baixo, virei-me para dentro, tentando dar atenção aos buracos que estavam abertos. Tenho cultivado o meu lado espiritual, que estava a mirrar a sério. Enfim, tenho tentado cuidar de outras partes de mim negligenciadas por anos de dedicação a outras partes (algumas meritórias, outras apenas idiotas).

E estou menos cínica, menos cética, mais tolerante. Estou mais compreensiva e mais compassiva. Consigo ver as coisas de uma maneira mais abrangente, consigo perceber melhor que realmente anda tudo em fluxo. Que nenhuma parte do nosso valor é definida por um momento ou uma área das nossas vidas - seja ele bom ou mau. Valemos intrinsecamente, ponto final.

Se calhar estou a tornar-me uma chata por causa disso, mas quero lá saber. Nos momentos em que a maturidade não falta, estas novas perspectivas só me fazem aceitar melhor a minha própria vida e as pessoas dentro dela.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Daqueles dias em que a maturidade falta

Todo o mundo é mais feliz do que eu.
Todo o mundo tem menos problemas do que eu.
Todo o  mundo é mais organizado do que eu.
Todo o mundo tem trabalhos mais fixes que o meu.
Todo o mundo é mais disponível e menos ansioso do que eu.
Todo o mundo faz a cama.
Todo o mundo se maquilha.
Todo o mundo arranja as unhas.
Todo o mundo tem a depilação em dia.
Todo o mundo vive para os filhos.
Todo o mundo faz bolos perfeitos.
Todo o mundo tem roupa passada.
Todo o mundo acaba os livros que começa.
Todo o mundo responde à altura.
Todo o mundo está à altura.