quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O caminho

A escola nova do Gabriel fica mesmo colada à estação dos comboios, a coisa de 15 minutos a pé de casa sendo que boa parte é a subir. Por motivos logísticos, é o pai que vai buscá-lo a maioria das vezes, e eu fico sempre a morrer de pena de ter o puto a subir aquele caminho todo. Coitado, deve ser estafante.

Aí o Hugo me descreve: primeiro passamos pelos comboios, que ele adora. Ao lado dos comboios há a padaria que tem uma fornada mesmo à hora que lá passamos, e o Gabriel quer sempre pão. Vai mordiscando pão quentinho a ver montras até chegar à casa de frangos, que tem um cavalinho de moedas à porta. Ficam-se ali uns momentos, o Gabriel finge dar pão ao cavalo, às vezes monta-o, em dia de sorte lá ganha uma moeda para andar. Um pouco mais à frente há o quiosque das revistas, com mil e uma coisas coloridas para ver e pedinchar. Como no cavalo, há dias em que tem sorte, há dias que nem por isso. Mais um bocado e chegam à casa das chaves, com um daqueles bonecos insufláveis enormes de braços ao ar que o assustava há uns meses, mas que ele conseguiu domar o medinho. Fica por ali a dançar à volta do boneco. Ontem mudaram o dito cujo para outro com chapéu e foi uma alegria. Depois da casa das chaves, vem a zona residencial, cheia de gatos. Vai espiando os gatos e fugindo dos portões com cães.

O caminho para casa é cheio de aventuras, eu é que já não as vejo. Só vejo a dor dos 15 minutos a subir.

Que belíssima merda são os olhos de adulto.

9 comentários:

gralha disse...

Tens de redescobrir os encantos de andar a pé. Que sorte que tem o Gabriel :)

Naná disse...

Não acredito que o Gabriel não vai enumerando as coisas giras que tu dizes perder, só para que tu as vejas também...

Há coisa de umas duas semanas, o Filipe é que deu pela falta do palco montado para as festas numa aldeola a caminho de casa... eu nem tinha reparado!

Ana. disse...

Quem me dera ainda ter os olhos de miúda...
Aposto que tudo seria mais simples.
:)

dona da mota disse...

A última frase há-de constar em muitos muros e ainda ser referida daqui a muitas dezenas de anos, de tão correcta...

Mary QA disse...

Descreves o caminho que faço tantas vezes, e que fiz durante toda a minha infância.
A creche do meu filho fica do outro lado da estação, na rua que vai dar à praia e ao parque dos patos :)

Melissinha disse...

Já sei qual é, Mary :)

disse...

Já somos três a conhecer o caminho!
Um bocadinho mais à frente cheira a queques acabados de fazer...
Gosto desta Vila que me adoptou ;)

Melissinha disse...

Ahhh, raça dos queques! Atravesso a rua e vou ver peixinhos hahahah

Cátia Maciel disse...

hahahahhahah
é por esse mesmo motivo que não gostas de brincar. Deita fora os olhos de adulto chato. Há adultos que adoram brincar e ver brincadeira em tudo ;)
Eu tb tenho alguma dificuldade em brincar, se é na rua deixo-me ir e invento 1001 animações - andar nos risquinhos dos passeios de cimento ou só nos pretos/azuis/brancos da calçada portuguesa, fingir que determinada parte do passeio é o mar, namora montras, saltar nas tampas de esgoto, subir aos muros, segurar nas costas dele e fazer de conta que ele é o maquinista do comboio... e tantas mais - em casa é mais difícil pois dá-se-me a responsabilidade de mulher mártir e ponho-me sempre a limpar arrumar. Agora aprendi a ordenar os legos por cores enquanto ele monta naves espaciais e isso ajuda a minha cabeça de mulher mártir que tem sempre que estar a arrumar alguma coisa.