quinta-feira, 25 de maio de 2017

Mais uma sobre a minha mãe que na verdade é sobre mim

A minha infância foi pautada por altos e baixos financeiros. Nunca chegámos a extremos de abundância ou penúria, mas dentro do meio oscilávamos bastante, especialmente para a mó de baixo.

E, quando na mó de cima (mó de cima dentro do meio, reparem), a minha mãe dava-me coisas. Não as que eu pedia, porque nunca fui de pedir, mas as que ela sabia que eu queria. Não havia um não educativo para me habituar a não ter sempre tudo. Não havia a criação para a escassez.

- Vamos no Iguatemi.
- *sorriso*
- Te dou cinco mil.
- *respiração suspensa de alegria*.

Era por ela, hoje sei disso. O dar-me coisas era o que ela oferecia a si própria nos períodos de alívio dos aperreios de dinheiro.

Isto para dizer que o meu marido diz que dou muitas coisas ao meu filho, e está coberto de razão. Não passámos, até agora, pelas oscilações que os meus pais passaram, as coisas são estáveis desde que o miúdo nasceu. Não há nenhum motivo para eu lhe comprar coisas, não devia dar-me nenhum prazer especial e para ela nunca é nada do outro mundo. São alegrias que passam depressa, mas guardo-as junto às minhas da infância. Essas duravam mais.

Brinquedos da Estrela.
Maiô de amarrar no pescoço.
Melissa que vinha na bolsinha.
Borracha perfumada.
Brilho com sabores.
Cute stationary do Paraguai.

Cheirava tudo, guardava tudo, levava para a escola, fazia inveja a quem não tinha. Os meus tesouros, tudo que mamãe comprava para mim.

Hoje foi o dia de os pais irem brincar com os meninos na escola do Gabriel. Foi o torneio de spinner (para referência futura: coisinhas de girar sobre o dedo) e o meu delicado e pouquíssimo competitivo filho passou em duas etapas, só perdeu na terceira. Estava muito orgulhoso e eu? Eu tinha um nó de alegria na garganta.

- Vamos ao chinês grande.
- *sorriso*
- Te dou um spinner com luzes.
- *respiração suspensa de alegria*.

Já vou ouvir do Hugo.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Curtíssima que, parecendo machista, não é mesmo nada.

Coisas que melhoraram incrivelmente a minha qualidade de vida nos últimos dois dias:

- Fazer um alisamento.
- Contratar uma engomadoria.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Curtíssima sobre o tempo que importa (e ainda meio influenciada pela Marta Gautier)

A pensar se não seríamos mais felizes, cá em casa, se passássemos as noites de segunda e quarta a fazer alguma coisa juntos, ou nada, em vez de ele no judo e eu e/ou o pai no café à espera.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Slut shaming no colégio católico

Tinha 11 anos e estava perdidamente apaixonada pelo R.. Não era coisa nova, estava apaixonada por ele desde que entrara para a minha turma no 3º ano. Mas, como disse anteriormente, eu era uma miúda esquisita, ele tornou-se imediatamente popular. Gravitávamos em dois mundos diferentes, eu no meu, ele no de toda a gente. Sigamos.

Nas festas juninas, dança-se a quadrilha e é uma festança. Durante a primária, era a professora que fazia os pares, portanto não havia problema, mas no quinto ano a coisa complicou-se. Era preciso que os rapazes convidassem as raparigas, o que me tirava de imediato do jogo. A A. recebeu vários convites, como sempre, a G. também. Tinham de decidir que convite aceitar. Eu não recebia nenhum.

Ia à missa todos os dias antes das aulas, e um dia, fiz uma promessa a Nossa Senhora para dançar com o R. Não era lá grande promessa, umas quantas ave-marias, só para ver se colava com a santa. Vá lá, Senhora, quebra o galho. Contei à minha melhor amiga T e a mais ninguém.

Um dia antes de começar os ensaios, o irmão do R. aborda-me. Quer saber se já tenho par para a quadrilha. Não, ainda não. Tu quer dançar com o R.?

Obrigada pela graça concedida, Minha Mãe do Céu.

O R., afinal, era incrivelmente tímido. Lá me entregou o convite sem dizer uma palavra e encontramo-nos no dia seguinte, no ensaio. Não conseguia olhá-lo nos olhos, nunca. Sentia uma felicidade absoluta, adiada durante anos. Lembro-me da primeira vez que nos tocámos: as mãos, em roda. Lembro-me da letra da canção.

Olha o fogo, 
olha o fogaréu
queimando as pontas da palha do meu chapéu...

Lembro-me de boa parte da coreografia.
Nunca, em anos e anos de colégio, tinha-me sentido tão feliz.

Um dia, saí do ginásio depois do ensaio, e, à porta, esperavam-me quase todos as raparigas da turma. Cercaram-me.

Tu é mesmo galinha ( = fácil, oferecida). Fazer uma promessa pra dançar com um menino? Que vergonha.

Que vergonha.
Que galinha.
Galinha.
Vergonha.

A T. contara o meu segredo.
Neguei tudo, neguei tudo. Mas para quê, a palavra já estava espalhada e era uma questão de tempo até chegar aos ouvidos do R.., mais um prego tão desnecessário no meu caixão social. Agora o R. ia saber que o único motivo pelo qual dançaria comigo era a intervenção divina.

E provavelmente tinha cometido um pecado tal que ia arder no inferno para sempre. Enfim, estava fodida assim na terra como no céu.

Mas, de alguma maneira, tinha valido a pena.

Não sei se ele chegou a saber ou não. Fui a mais dois ou três ensaios, mas não fui ao dia da festa, não me lembro o porquê. Não dancei a minha quadrilha, mas não me custou. Ficaram os ensaios. No ano seguinte, saí do colégio, vim viver para o estrangeiro. Não sei, até hoje, porque é que o R. me convidou em detrimento da P, da G, da C.

Talvez tenha sido mesmo Nossa Senhora, que engravidou adolescente e deve ter perdido muitas quadrilhas.

E ainda não paguei o diabo da promessa, caneco.

Esta memória tem vários ângulos dentro da minha cabeça. Acho até que já escrevi sobre ela aqui há uns anos, só a falar na paixão doida que eu sentia, no coração a bater. Mas houve o outro lado. Há sempre um outro lado.





terça-feira, 28 de março de 2017

Das procuras

O padrinho, ateu mais devoto que conheço, diz-me com alguma frequência: tu não acreditas em nada. Em nada. Estás mais próximo das minhas (não)crenças do que imaginas. 

E fico frustrada todas as vezes, porque ele está coberto de razão. Sei que somos poeira cósmica. "Seres vivos com consciência de si próprios", diz ele, e sei que tem razão. Porque, então, não me sinto confortável nisso? Porque é que sinto uma paz enorme quando comungo na missa, por exemplo, ou quando acendo as minhas velas a todos os meus guias, ou quando vejo coincidências? 

Noto, em mim, inquietações cada vez mais fortes. Uma necessidade de encontro de uma linguagem que dê algum sentido a isto tudo, mas tudo cai diante do menor pensamento lógico e vejo-me órfã outra vez.

É difícil chegar a Deus, caramba. George Harrison bem dizia. It takes so long.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Dos clichés que também somos, no fundo.


Vi uma palestra da Marta Gautier este fim de semana e gostei muito mais do que achava que ia gostar. Entre muitas coisas que ouvi por lá, uma mexeu comigo em especial: ela falava da sua experiência de ter sido uma criança muito calma e de estar sempre a ser incitada a mexer-se. Vai para o baloiço, filha, e lá ia ela, e fingia divertir-se quando tudo o que queria era estar parada a observar. Sorri e lembrei-me da minha dona Mel, envergonhadíssima num baile de carnaval infantil depois de ter costurado à mão uma máscara espetacular para mim apenas para me ver no chão a apanhar confetis.

 Nunca fui a filha que ela queria. Nunca. Demasiado emotiva, demasiado analítica, pouquíssimo vaidosa, esquisita, viajandona. Não era a filha duma pragmática como ela, e sim, filha de uma sonhadora. Mas era o que tínhamos, foi com isso que lidámos durante 50 anos. Sorri ali, no meio do auditório.

Até me cair o balde de água fria sobre a cabeça.

Puta que o pariu, estou a fazer a mesma merda ao meu filho. Estou a incitá-lo a quebrar limites o tempo todo, o meu menino amedrontado. A dizer a um menino que se porta bem que não devia portar-se tão bem. A exigir-lhe um ritmo que ele não tem. A empurrá-lo na direção contrária à essência dele. Tudo para que ele se encaixe numa tal "normalidade" que nem sei bem o que é. Que esteja numa média qualquer. E isso é apenas parvo.

Penso se não o farei por ter sido uma criança esquisita, que via coisas, inventava histórias e vivia muito dentro da própria cabeça. Sofri um bocado durante a primária. Mas ele parece bem. Caramba, ele está bem, não tenho de espelhar nele o que fui ou não fui. 

E pergunto-me se será esta a sina de todos os pais: tentar cumprir nos filhos o que não cumprimos no nosso tempo, assim com os nossos pais e avós não cumpriram antes de nós, e os nossos filhos continuarão com essas expectativas sobre os seus filhos, e os seus filhos nos filhos deles, desde o início dos tempos, como se fôssemos um só ser humano a nascer vezes sem conta, um ser humaninho que nunca corresponderá inteiramente ao que se espera dele, com uma forma que nunca será preenchida na sua totalidade porque ninguém lhe conhece os contornos. Como um campeonato que nunca será vencido porque ninguém lhe conhece as regras. A ver se é desta, a ver se é desta.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Pequenas histórias tristes*

O meu pai tem uma tragédia na sua vida. Nasceu no dia 2 de abril, tendo a minha avó morrido no dia seguinte - no dia do aniversário dela, o dia em que completaria 33 anos.

Há uns dias, o meu pai confessou-me que uma das suas maiores preocupações era que eu nascesse no dia 2 também. Nasci a 31 de março.

Não há hipótese de fazer com o que o meu pai aceite fazer anos. Muitas foram as vezes em que insisti fazermos a mesma festa e ele até acede ao pedido para me agradar, mas nota-se perfeitamente que nao está a comemorar nada. É uma data maldita. Nunca deixará de ser. Existem, sim, demónios invencíveis. O do meu pai é um deles.

A Little Life, um dos melhores livros que já li na vida, seguramente o melhor livro que li já adulta, é um bocado sobre isso - o falhanço do amor, mesmo o maior deles, o mais sincero, diante de alguns fantasmas. Lindo, cheio de sofrimento e alguma redenção - pouca. Foi um livro que me fez compreender grandes questões na minha vida e mudar outras. É uma grande, grande história. Se puderem, leiam.

*Porque para histórias alegres há o Facebook. Este blog, mesmo que passe um ano inteiro parado, é o que é, a casa das minhas sombras - com algumas abertas.