sexta-feira, 24 de março de 2017

Pequenas histórias tristes*

O meu pai tem uma tragédia na sua vida. Nasceu no dia 2 de abril, tendo a minha avó morrido no dia seguinte - no dia do aniversário dela, o dia em que completaria 33 anos.

Há uns dias, o meu pai confessou-me que uma das suas maiores preocupações era que eu nascesse no dia 2 também. Nasci a 31 de março.

Não há hipótese de fazer com o que o meu pai aceite fazer anos. Muitas foram as vezes em que insisti fazermos a mesma festa e ele até acede ao pedido para me agradar, mas nota-se perfeitamente que nao está a comemorar nada. É uma data maldita. Nunca deixará de ser. Existem, sim, demónios invencíveis. O do meu pai é um deles.

A Little Life, um dos melhores livros que já li na vida, seguramente o melhor livro que li já adulta, é um bocado sobre isso - o falhanço do amor, mesmo o maior deles, o mais sincero, diante de alguns fantasmas. Lindo, cheio de sofrimento e alguma redenção - pouca. Foi um livro que me fez compreender grandes questões na minha vida e mudar outras. É uma grande, grande história. Se puderem, leiam.

*Porque para histórias alegres há o Facebook. Este blog, mesmo que passe um ano inteiro parado, é o que é, a casa das minhas sombras - com algumas abertas.

Curtíssima sobre tapioca por quem sabe dela.

Não, senhores.

Tapioca nao é fit.
Tapioca não é superalimento.
Tapioca não é, sob nenhuma, mas mesmo nenhuma circunstância, para ser servida com ovo mexido.

Tapioca é vida, tapioca é amor e infância e cheiro a lenha.
Há várias maneiras de comer tapioca. Falo das do meu Ceará.

Umas docinhas, muito tenras e finas, pequeninas, servidas numa folha. Deliciosas, já salivo só de me lembrar delas. Mamãe adorava.

Umas muito grossas, como um bolo, com muito coco em lascas, fresco, encharcadas também em leite de coco fresco, vendidas em tabuleiros no centro da cidade com um fio de leite condensado por cima.

A que se vende na praia, muito gordinhas e curtas, com uma fatia de queijo coalho lá dentro, mergulhadas em leite de coco (TAPIOCA TEM DE SER MERGULHADA EM LEITE DE COCO ANTES DE SERVIR), com manteiga por cima.

A das tapioqueiras da BR, as melhores, feitas à lenha, cheirosas, regadas com leite de coco, barradas com margarina, com um belo copo de café bem doce a acompanhar.

Respeitem a tapioca, ok? É uma bênção dos povos indígenas que deve ser honrada como tal.

Não lhe metam frango.
Não lhe metam nutella.
E pela hóstia consagrada, não lhe metam ovo mexido.

Aquilo nem sequer é nutritivo, caramba.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Dar nomes aos bois

Há dias que ando exausta. Absolutamente exausta, a adormecer pelos cantos em horas impróprias. Sem dar atenção a ninguém, a reclamar da saúde. Fui ao médico, tenho um batalhão de exames por fazer. Convenci-me de que estava anémica ou algo pior.

Ontem foi a despedida do meu pai, que voltou hoje para Inglaterra. Passou cá quase sete meses, desta vez. Estava completamente integrado na nossa rotina. Eu sou contra este regresso desde que foi anunciado: porque ele está perto da reforma, porque já trabalhou demasiado na vida, porque tem problemas de saúde. Chateio-o. Mas nada o demoveu, está entediado, precisa de trabalho e em Portugal não há.

Ontem, à mesa, estávamos todos. E eu voltei a fazer cara feia. Ele não devia ir. Não devia. E continuo a acender velas para que apareça trabalho em Portugal. Todos olhavam para mim como se fosse maluca, até o meu filho. A Bel olhou-me nos olhos e disse: tadinha.

O voo era hoje de manhã, não sabia bem a hora. Houve acidente na A5, estava tudo parado de Cascais às Amoreiras, e liguei ao meu pai. Estava já dentro do avião.

Ah.

Desejei-lhe boa viagem e boa sorte.

E disse para mim mesma, pela primeira vez: estou muito, muito triste por o meu pai ir para longe de nós outra vez.

E comecei a sentir-me um pouco melhor fisicamente.

quarta-feira, 22 de março de 2017

O escorrega

Todos nós, por cá, trabalhamos muito. Chegamos estoirados à sexta.

Entro no centro de estudos e lá está ele, olhos pesados, já desanimado. Onde queres ir, filho? Escolhes tu.
Ao escorrega.

O escorrega é o do Aleggro de Alfragide, que não é mesmo nada perto da nossa casa, mas vamos, mesmo apanhando trânsito, mesmo tendo de jantar na pior praça de alimentação do país. Vamos porque é o happy hour dele, a caipirinha, o bota-fora da semana. Na última sexta, esteve 70 minutos a escorregar enquanto o observava no Starbucks. 70 minutos. Não o interrompi nunca. Estava nos seus próprios termos. Quisesse, teria passado outros 70. Sai de lá renovado, o meu menino de oito anos já tão cheio de coisas para fazer.

Quanto a mim, estou por encontrar o meu escorrega. Algo que me zere o peso dos dias. Nada o faz, nem o que fazia antes - nem os meus livros, nem os meus pensamentos. Às vezes penso que me entreguei à ansiedade e ao estar 100% do tempo ligada. É algo que me entristece muito.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Um pequeno segredo

Invejo as pessoas que têm conversas pelo whatsapp com as mães.
Seja que conversa for.

Aliás, tenho inveja de conversas com as mães.
Não é sempre, mas apanha-me sempre desprevenida.

A C. há uns anos, quando pediu à mãe que lhe marcasse manicure, uma qualquer, só queria livrar-se da merda do gelinho.
A P., que é das minhas - consulta a mãe sobre tudo. Eu era assim. Sobre tudo.
O M. ontem, que me mostrou uma mensagem estranhíssima da mãe no whatsapp,meio na dúvida sobre ela ser, na verdade, uma alienígena.

Uma pessoa quer que o tempo passe - caramba, sou muito mais mãe do que filha neste momento, mas há fases em que estas invejas (sim, dirão que é saudade, mas não, é mesmo inveja, desejo de ter o que o outro tem) beliscam muito.

Isto porque acabei de mandar uma mensagem ao meu pai a dizer que o sanex azul está a 1,49 no Lidl.

Era o tipo de mensagem que me imagino a receber da minha mãe.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Começando por aqui


Para quem ganha a vida a dar corpo a ideias de outras pessoas (e que belíssima profissão é esta, senhores. Não me queixo nadinha, ou quase nadinha), ter um trabalho seu, só seu, validado por um juri especializado sabe a ginjas. Fiquei em segundo lugar no Guiões, festival ainda tímido, e nem preciso de dizer que foi um dos dias mais felizes da minha vida.

A minha história, aquela que guardei durante anos e que me saiu da alma num período muito adverso - aliás, foi escrita por causa desse período muito adverso. Ainda mais "aliás", já agradeço muito pelo tal período adverso, foi ele que me deu este filho. Nunca o teria acabado se não estivesse na merda, a tentar provar o meu valor a todo o custo. 

 
Não há perdas sem ganhos nem ganhos sem perdas. foi a frase que trouxe de uma das minhas terapeutas (já disse aqui que trago um ensinamento de cada uma, não disse?) Ahh, julgam que é cliché? Não é. Exige um sentido de observação bastante apurado para perceber o  

Acredito mesmo que, um dia, O Inverno e a Aldeia será produzido. E espero que dê um bom filme. A história merece. 

Os dados estão lançados. Que a Isabel e a Mariana saiam do papel para as mãos mais capazes que lhes puderem pegar.
Sim, esta sou eu, premiada, 35 kg mais magra do que no ano anterior, cheia de amigos na plateia.