quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Amor de longe*

Há algumas semanas, postei no FB que tinha saudade de chegadinha. Chegadinha é uma das derradeiras street foods de Fortaleza, basicamente hóstia com um bocadinho de açúcar, em formato de telha, extremamente delicada. O que há de especial nas chegadinhas, podem perguntar-se, e eu respondo: a forma como é vendida.
Um homem com um tubo de alumínio preso por uma alça ao ombro, com um triângulo. Aparece nas ruas a tocar o triângulo e a meninada toda corre; é a hora da chegadinha. Não se vendem nas lojas. Portanto, se uma mulher grávida tiver desejo súbito de chegadinhas, o marido estará metido em sérios problemas. Só lhe resta esperar pelo timtimskitimtimtimskitim na rua.

Já disse que eram extremamente delicadas, certo? Isso é dizer pouco.São finíssimas, quase transparentes. Imaginem uma hóstia com metade da espessura e dez ou quinze vezes maior. Desfazem-se com o olhar, na verdade.

Isso não impediu que as minhas tias e primas conseguissem embrulhar algumas dúzias em plástico, papel de cozinha e as pusessem numa caixa de sapato perfeitamente isolada dentro de uma mala, como se contivesse uma relíquia sagrada, para as trazer para mim, cruzando o mar e tudo. 
Eu, de avental de sopeira e cabelo ao ar, e o meu tesouro.


E é assim que se ama de longe. Sim, o Skype e o Facebook facilitaram muito a vida das famílias e amigos separados, mas é muito fácil, e amor difícil sabe melhor. E trazer uma chegadinha, ou várias, intactas de Fortaleza até Lisboa é amor difícil. 
Um dos melhores presentes que já ganhei até hoje. 

* O título do post vem desta maravilha de alto astral.

10 comentários:

gralha disse...

"Desfazem-se com o olhar" é do melhor de sempre. Isso é que é muito amor, de verdade.

dona da mota disse...

Uau!!!
Quando fiz Erasmus, no dia dos meus anos, extremamente só, recebi uma caixa daquelas grandes dos CTT enviada pela minha mãe com uma camisola de malha, bolos fintos e broas dos santos, que são doces que se comem aqui na altura dos Santos. Fiquei tão feliz que pensei que se morresse naquele momento a minha vida tinha sido boa. A solidão faz pensar coisas estranhas... :)
Mas sim, é uma felicidade enormeeeee!

Naná disse...

Isso foi um recorde digno de registo... chegadinhas intactas depois duma travessia pelo Atlântico!

Essa felicidade deve ser parecida com a minha quando recebo um bolo de mel tradicional da Madeira, que me manda sempre uma grande amiga!

Ana C. disse...

Sabe a língua da sogra? Se me amas, guarda-me uma, por favor :)

Melissinha disse...

Guardo sim, Casaca. É língua de sogra muuuuuuito fina.

Pekala disse...

isso é mesmo mesmo mesmo fixe :))))

triss disse...

Ana C. estava mesmo a pensar nisso, têm um ar deliciosa!

Maria João disse...

Compreendo bem o sentimento :)

Carla R. disse...

Adoro a foto !

Fizeste-me pensar nos olhos dos meus filhos no Natal. E nos meus com o bolo "Quero mais" da minha avo Aidinha.
Sera que tem algo a ver com as dentelles da Bretanha ? (não têm a mesma forma impossivel de se exportar, excepto em casos de amor, mas fiquei aqui com a pulga atras da orelha)

As ditas :
http://www.gavottes.fr/fr

Olha, até estou capaz (sejemos loucas) de te enviar uma embalagem e tudo.

Melissinha disse...

Sejamos loucas, sim, manda :D