quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Duas gabriélicas

- Uma pergunta que me costumavam fazer quando eu estava grávida era se ia falar com o bebé em português ou brasileiro. Ora bem, eu não escolho, era o que respondia. O meu sotaque adapta-se naturalmente ao ouvinte, foi sempre assim. Nada é forçado, nada é artificial. Mas, dizia eu, buchuda, que acho que vou falar com ele como falo com o Hugo, que é uma coisa muito misturada.
Afinal não. Quando estamos todos juntos, sim, falo com ele como falo com os meus amigos de cá. Separados, a dois, é bem diferente. O sotaque do meu coração é o sotaque da minha mãe e de todo mundo para trás. O sotaque com que falaram comigo quando tinha a mesma idade do meu filho. Não só o sotaque, como as expressões, as brincadeiras, as rimas e canções. Volta-me tudo sem esforço. E despeço-me todos os dias à porta do infantário com um sonoro "mamãe te ama muito".

- Papai sobre o Gabriel: "Só lhe digo 'não'quando a segurança dele está em risco. De resto, ele está aprendendo os seus limites e a confiar em si próprio. Não podemos sabotar isso agora. Ele precisa de rédea solta para se conhecer".
Ora bem, eis um raro caso em que filha e pai (já agora, marido) partilham da mesma opinião. Agora é a hora de o Gabriel conquistar o mundo. Há muito tempo pela frente para o mundo lhe impor regras e o conquistar a ele. Não tenho pressa e lá vou cumprindo o meu papel de escudeira, a seguir os minipassinhos a toda a parte, forçando-o o mínimo possível a seguir-me a mim.
"Ah, ele vai ficar mal acostumado". É um risco que estou disposta a correr com um grande sorriso nos lábios.

4 comentários:

Ana C. disse...

Como é que será que o Gabriel vai sotacar, nunca te perguntaste?
Quanto à segunda gabriélica, sempre disse não à Alice em relação a algumas coisas e em relação a outras tantas, deixava-a descobrir por si mesma. Havia muita coisa que ela sabia não poder mexer, nem ir e outras tantas coisas que ela sabia poder estar à vontade.
Acho que dá para conseguir uma espécie de equilibrio entre as descobertas do mundo e os limites que devemos traçar e só temos até uma certa idade para o conseguir fazer com algum sucesso.
Vamos lá ver como corre com o António...

Melissinha disse...

Essa pergunta é bem mais fácil: vai falar como qualquer português. Mesmo os pequenos brazuquinhas quando chegam cá levam coisa de três meses, no máximo, para terem até as nuances mais discretas do luso-acento (o som de sc em nascer, por exemplo, e os rr guturais, etc.)

Ana C. disse...

Pois, a realidade é que eles aprendem na escola, mas é pena, adorava ouvi-lo falar gabrielês, uma espécie de português cantado.

Marina disse...

"Mau acostumado, você mi deixou mau acostumado.... la la la!" Viva a liberdade.
A primeira pergunta vinha de gente ignorante, não? Os brasileiros, que eu saiba, falam português! Bjs