terça-feira, 12 de outubro de 2010

O que é ser macho?

Sem me querer armar ao pingarelho, recentemente num artigo da Newsweek, escrevia-se sobre o papel do homem na sociedade e a necessidade da sua redefinição enquanto pai e marido.
Não é novidade para ninguém, mas se olharmos para o mundo de hoje, a mulher não é a mesma dos anos 50, que se limitava a cuidar do lar, dos filhos e ter o jantar pronto à hora do marido chegar.
De facto eram tempos de fartura para os machos, como aliás a personagem Don Draper muito bem sintetiza na multi-premiada série Mad Men.

O que é importante ressalvar é que o mundo mudou e a mulher pega na enxada e vai para a labuta, conseguindo amiúde ordenados superiores e tendo um papel determinante nas economias familiares. O que ainda parece não ter mudado é a partilha das lides domésticas e a assistência aos filhos. Mesmo em tempos de crise, onde em situações extremas em que os maridos estão desempregados e portanto com mais tempo livre, nada se altera. A mulher é que, depois do trabalho, continua a varrer o chão da cozinha, a cozinhar e a mudar as fraldas aos putos.


Para se ter uma ideia, a minha mãe numa recente conversa que teve comigo ficou bastante admirada de eu passar a minha roupa a ferro e aspirar a casa. A ideia do seu filho macho, criado para não mexer uma palha, ter uma esfregona na mão desiludiu-a bastante e julgo que lhe tirou alguns anos de vida. No final da partilha de opiniões que o assunto suscitou, fico na dúvida de quem ficou mais chocado com a opinião do outro, se eu, se ela.
Mas isso não é novo, de facto em qualquer conversa entre mulheres é normal que a referência ao trabalho macho seja uma ajuda. A frase “o meu marido ajuda-me imenso” é ouvida com bastante frequência. Nada pode estar mais desacertado que a utilização do verbo “ajudar”.

As mentalidades continuam iguais e por parte das mulheres é esperado muito pouco dos homens. Os pais presentes são confrontados muitas vezes com essa baixa fasquia, como reparou o escritor Michael Chabon no artigo. Por exemplo, quando vou com o Gabriel ao jardim ou ao médico, sou considerado um bom pai apenas porque estou a brincar com ele ou informar-me sobre a saúde da cria. O que realmente é estranho é o mesmo sentido de avaliação não ser feito à mulher. Ninguém diz a uma mãe que ela é diligente apenas porque tem o filho ao colo. Parte-se do princípio que é a obrigação dela.


Felizmente algumas coisas mudaram. Os próprios governos começam a legislar para dar mais regalias aos pais. Portugal até foi um dos pioneiros nessa matéria e já é possível haver partilha nos 6 meses de licença. Mas uma coisa é a legislação e outra completamente diferente é a vontade patronal em aceitar a repartição de responsabilidades. E nestas coisas já se sabe, e ainda por cima em tempo de crise, o homem trabalha a mulher cuida do recém-nascido. Podíamos até discutir o exemplo Sueco mas, sinceramente, não me apetece ficar deprimido!

O artigo, no entanto, acaba com uma pergunta extraordinária:
Afinal que é o mais macho? O pai ausente que fica sentado no sofá a ver televisão ou o aquele que cumpre com as suas obrigações em casa e cuida dos filhos?

O artigo pode ser lido aqui


7 comentários:

Ana C. disse...

Suécia. Tu estás em sintonia com os suecos. Para um pai e uma mãe suecos dividir tarefas não faz do marido um ser genial e um bom partido, mas simplesmente uma pessoa normal.
Infelizmente ainda estamos a quilómetros luz de mudar verdadeiramente mentalidades. A começar pelas próprias mulheres que incutem no filho homem, desde o nascimento, o síndrome do menino da mamã.
Muito bom este texto :)

Márcia disse...

Muito bom mesmo Hugo.

Parabéns pela visão acertada da paternidade/maternidade!

Beijos grandes,
Márcia

Melissinha disse...

Essa reportagem merece ser lida duma ponta à outra! E o Hugo também.

Melissinha disse...

Como a Ana disse, a mulher também tem de acertar os ponteiros nos seus papéis de esposa e de mãe. Parar de levantar de madrugada TODAS as vezes para embalar o bebé, deixar de fazer o jantar uma vez por outra a ver se gera alguma iniciativa. Acredito que, se o fizer, os filhos observam e aprendem.

Pekala disse...

Hugo casa comigo por favor!!!

gralha disse...

Não querendo dizer que as coisas não têm de mudar, que TÊM, é importante desfazer um certo mito de que as mulheres de hoje trabalham mais do que nunca. Na verdade, trabalharam sempre na terra nas sociedades feudais, nas fábricas (ou em casa) nas sociedades industriais, e por todo o lado agora. As donas de casa sempre foram uma minoria (privilegiada?). E as estatísticas em Portugal parecem apontar mesmo para a tendência de os homens fazerem cada vez mais tarefas domésticas, ainda que as mulheres ainda façam bastante mais.
Cá em casa somos Suecos, pelos vistos.

Costinhas disse...

somos mais um casal de suecos em terras lusitanas, portanto.

:)

[e "ele ajuda-me muito" foi sempre designado lá em casa por "nós dividimos muito bem as tarefas"]