terça-feira, 7 de abril de 2009

Genesis Gabrielum - ou a minha história de amor!

Posso dizer, sem parar para pensar, que o teu pai, apesar daquela carinha de pré-adolescente que engana meio mundo, é o homem mais obstinado que já conheci, pois quando me viu pela primeira vez soube que eu era perfeita para ele e não me largou mais.

Isso foi no final de 2001, nos escritórios da multinacional onde tínhamos os nossos empreguinhos de merda. No seu primeiro dia, fomos almoçar juntos e eu achei-o uma besta pretensiosa que queria impressionar-me com os clássicos que lia e ouvia. Claro que eu, espertíssima, não demorei um dia inteiro a perceber que aquele discurso tresandava a insegurança. Mas não lhe disse nada, nem mandei as bocas venenosas que já conheces, e sabes porquê? Porque de alguma forma estranha, também soube, ali, que ele era perfeito para mim.

Não quero com isto dizer que foi amor à primeira vista. Aliás, neste relato que vem em resposta ao desafio da Ana, nem tu nem ninguém se vão deparar uma única vez com brilhozinho nos olhos e borboletas na barriga, porque a nossa história de amor é feita de outro material.

Retomando... Mesmo sendo bastante diferentes, eu e o teu pai tínhamos a solidão em comum, pelo que começámos a passar longas tardes de sábado juntos. O nosso primeiro encontro foi na Culturgest, fomos ver uma exposição pavorosa de fotojornalismo. Depois fomos ver o Ocean’s 11 ao São Jorge. Quando a noite caiu e depois de uns copos, o teu pai fez os possíveis e os impossíveis para passar a noite com a tua mãe, mas ela não é dessas, não senhor. Aliás, éramos apenas amigos, daqueles que têm exactamente o mesmo sentido de humor porco que irrita toda a gente, só eles entendem as piadas um do outro.

No escritório, tornámo-nos inseparáveis. Passávamos os dias a trocar mails e a suscitar olhares tortos por parte da chefia. Éramos tipo o Jim e a Pam, mas não passámos três temporadas para cruzarmos caminhos a sério. O Hugo, farto das minhas indecisões, começou a jogar mais pesado. Escrevia-me mails de amor – não em nome próprio, que escritores detestam clichés: escrevia cartas enormes assinadas pelo seu PC à minha bonsai Bianca, que enfeitou a minha secretária durante três alegres semanas até perecer em auto-gestão). Ofereceu-me CDs com músicas da minha infância e alguns livros que ele próprio tinha adorado (American Psycho e Microserfs, se bem me lembro), e eu, embora encantada com aqueles gestos, não cedia. Sei lá, do topo dos meus 25 anos devia pensar que o homem da minha vida apareceria num alazão branco e me levaria para a Amorolândia.

Os meses foram passando e um dia, cansado, o teu pai disse-me:

- Sabes do que tenho medo? De que deixes este momento passar e isto que temos acabe.

Eu completei na minha cabeça: seria um desperdício tremendo de alma gémea.

Foi assim, sem amor à primeira vista, sem brilhozinho nos olhos nem borboletas na barriga, que começou a história de amor mais bem sucedida que conheço: no dia dos Namorados, com direito a prenda pimba da minha parte – humor porco, dessa vez nem ele entendeu – e finalmente com uma noite de amor, que é como as boas histórias terminam nos livros e começam na vida real. Mas, de livresco, o começo desta história tem só isso mesmo: o comecinho. Na verdade, os primeiros anos foram passados em dor e luto. Mas cá estamos, firmes, fortes e multiplicados, sete anos depois, mesmo sem grandes momentos de romance rasgado para contar. Como disse, a nossa história de amor é feita de outro material.

11 comentários:

Mafalda disse...

lindo :)
essa histórias de amor são bem melhores que as outras, não tenhas dúvidas ;)

Ana C. disse...

Melissa como é que não escreveste isto há mais tempo? Está enternecedora, real, romântica, limpa, seca, com sumo, molhada. Tem tudo aqui dentro e mais alguma coisa. E só posso concluir que o Hugo apareceu na altura certa para te ajudar a ultrapassar esse momento de luto de mão dada com alguém.
Parabéns por este texto!!!!

Melissinha disse...

Ena, já não durmo hoje, hehe. Corei!
Realmente a minha vida tem sido pródiga em momentos Providenciais, com letra maiúscula mesmo. Não sei o que teria sido de mim nos tempos que se seguiram a esse relato sem o Hugo.

manue disse...

snif snif que romântico!

Hugo Carvalho disse...

Não trocaste os homens?
É que não me lembro de nada disso!

Melissinha disse...

Ups.

Ana C. disse...

Hugo tinhas que estragar tudo... Gaijos.

Um pedaço de azul... um BloGui diferente disse...

Grande história! O lindão vai adorar ler, um dia...
beijos

Cristina disse...

Revi a minha história de amor na tua! Muito parecida.

Cristina

Melissinha disse...

Hás-de contá-la, Cristina :)

MARIINHA disse...

Melissa, que linda a carta que escreves ao teu filho a contar-lhe a história de amor dos pais. Gostei muito. Que continuem sempre juntos e muito felizes. Beijinhos e BOA PÁSCOA.