segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Funeral

Quando o cortejo fúnebre saiu da capela em direcção ao lote propriamente dito, e eu via o caixão em cima do carrinho e tentava ouvir o barulho das rodas, e a temperatura que fazia e as pessoas que ali estavam, e pensei:
"Ahh, então é assim. É isto".

Já sabia como era enterrar a mãe: era aquilo. Um monte de gente que me amava à minha volta e a sentir-me terrivelmente sozinha, na mesma.

Porque, pois mais amigos e gente linda que tenha à minha volta, sou imigrante, sou de família nuclear: pai, irmão, marido, filho.

Ontem voltei a ter um momento "Ah, é isto": então é assim perder a nossa vida. Está bem, check.

Tal como naquela altura, também tive gente linda à minha volta, e também me senti terrivelmente sozinha.
Tal como naquela altura, vou ter de reaprender a fazer tudo, agora com um filho. Das quatro pessoas fundamentais da minha vida, uma viaja hoje para muito longe, e a outra viajou ontem para nunca mais voltar. Das quatro pessoas fundamentais da minha vida, restam duas, e as duas dependem de mim.

Tenho um caminho longo pela frente. Mas se pensar que, quando perdi a minha mãe não sabia sequer ligar a máquina de lavar, acho que posso ter fé no futuro. E tal e qual como quando perdi a minha mãe, sei que o futuro não começa hoje, começa depois do luto.

13 comentários:

Cati disse...

Um beijo e muita força.
(pode vir de uma desconhecida, mas é sincero)

spazzi disse...

Esta desconhecida também envia um abraço imenso.

Dani disse...

Li este texto algumas vezes para poder compreender e interiorizar o que disseste, pois pensei que fosse apenas uma história, um testemunho que tinhas lido algures.
Não te conheço, mas fazes parte do meu dia há muito tempo e neste momento o meu coração está pequenino.
um beijo

inesn disse...

um abraço.

I. disse...

Um abraço apertadinho e um beijinho cheio de carinho.

Mafalda disse...

De outra desconhecida: um abraço enorme. E a certeza que vão ficar bem, tu e o Gabriel.

Tella disse...

beijo enorme

Marina disse...

Um beijinho, e muita força, da fundamentalista.

Ana C. disse...

Estaremos sempre sós nos momentos de luto na nossa vida. Quer seja luto pelos mortos, ou pelos vivos. Por muito que as vozes distorcidas nos cheguem, ou que mãos amigas nos confortem, a dor é só nossa. Mas de vez em quando, no longo percurso do luto, ajuda sentirmos que temos quem nos ofereça apoio quando as pernas fraquejarem de cansaço, ajuda sabermos que ao nosso lado, sem falarem, estão aqueles que nos amam e tu és amada sim e tens uma família além da nuclear. Tens amigos.

Ginguba disse...

Não sei se entendi bem o que li. Parece tão impossível...espero ter entendido tudo mal!
Desde ontem que procuro palavras para te dizer e não encontro.
Um abraço grande, Melissa!

A mãe que capotou disse...

Também eu não faço ideia se estou a ler bem estes varios posts, também sou uma desconhecida, também não acredito que o que quer que seja que aqui escreva va fazer muita diferença, mas se for possivel fazer uma diferençazinha microscopica com um beijinho, então deixo aqui este comentario.

Bailarina disse...

Tenho as pernas a tremer! beijos grandes

JS disse...

Um abraço grande...