domingo, 22 de maio de 2011

Queria guardá-la mais tempo

Mas ela foge-me.

Dália.
É o único nome de colega da minha mãe de que me lembro, a recepcionista com quem ela se dava mais. Todos os outros desvaneceram, e não vão voltar nunca. Nunca mais. Estou a tentar lembrar-me deles há dois dias. Nenhum voltou.

É impossível descrever o que é isto, o buraco que é isto e a noção de que o buraco não vai parar de crescer e ela um dia vai ser um sorriso, uma voz lá longe, uma coisa que aconteceu na minha vida e acabou cedo, com memórias tão nítidas como as do meu primeiro emprego, ou do primeiro namorado, ou de outras coisas que lá foram - mas, ao contrário dessas coisas que passaram e que um ou dois momentos me bastam para as ter, a coisa-mãe eu queria ter para sempre. Como não foi possível tê-la para sempre, queria guardar tudo dela na minha memória.

Obviamente que não consegui.

E sim, o meu sonho é dizer olá, Melânia, obrigada e adeus, mas não consigo. Posso até dizê-lo, mas dois dias depois estou a farejá-la, ansiosa e carente, dentro da minha cabeça.

Isto tudo porque há dois dias fui à minha agência bancária, a agência com a qual ela sempre trabalhara nos anos todos em que fora mediadora imobiliária. E perguntei o nome do gerente à moça à caixa. E quando ela disse o nome completo do senhor, ouvi a voz da minha mãe a dizê-lo. Deve ter doído mesmo, porque a moça perguntou se estava tudo bem comigo.

5 comentários:

gralha disse...

Escreve-a. Escreve tudo o que ainda tiveres dela.
(e mesmo assim não vai chegar... quando for comigo, acho que nunca vou ultrapassar a fase da revolta. morro de medo)

Melissinha disse...

Nunca tive a fase da revolta, sabes? Mas diz quem teve o mesmo tipo de perda - a pessoa mais próxima - que o tempo vai, sim, tirando o foco da coisa, mas as recaídas são valentes. Estou no meio de uma, e prefiro vivê-la do que me esconder dela (que foi o que eu fiz durante anos).

Melissinha disse...

A boa notícia é: sobrevive-se. Todo mundo acha que se morre disto, mas sobrevive-se, e bem. Só as recaídas é que sabem a morte.

(quanto ao continuar a vida como se nada fosse, como se lê por aí... é fuga e medo. Been there. E entendo, porque a coisa é enorme e absolutamente definitiva).

Ana C. disse...

Estou com a gralha, escreve-a sim. Aliás, tu tinhas começado um projecto de blog maravilhoso, que deixaste cair por terra...
Eu sei que a escrita não traz de volta o cheiro, a sensação na pele, a voz, mas é a forma mais digna que conheço de "imortalizarmos" alguém.

Melissinha disse...

Escrever também dói. Imortalizar também dói - tentei esquecer tudo e cortar com tudo justamente porque a presença na ausência doía.

Na verdade, tudo dói.