quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Duetos e a ranzinza do sofá

Não sou daquelas pessoas que resmungam das coisas novas, "comerciais", que hoje tudo é mau e feito às pressas. Pelo contrário, sinto-me jovem, gosto das tendências, das novidades, das reciclagens e essas coisas todas. Mas ontem apanhei-me num momento rezingão, ao ouvir o meu dueto preferido da época, que está ali por baixo. Não conhecia a letra, então fui ler: caramba, tão sóbria, contida, económica. E explosiva de amor ao mesmo tempo. Adulta, madura. Raio da música é velhíssima, tem 70 anos.

Então fui ouvir o meu dueto preferido sem ser da época, fofo todos os dias:

E fiquei irritada. Caramba, já não há músicas sóbrias, adultas e incrivelmente românticas, ou sou eu que ando a procurar nos sítios errados? Há uns anos, li uma crítica ao maravilhoso O sítio das coisas selvagens (filme, não livro), em que o crítico também padecia da mesma irritação com a música/cinema ditos independentes: mas será que agora temos todos de permanecer numa eterna adolescência, a sermos fofinhos, a encarar os nossos trauminhas de infância e a sermos mais fofinhos ainda na nossa fragilidade? Já não podemos dar uma de Hemingway e meter tudo para dentro e sermos machos, de vez em quando?

Não me entendam mal: acho uma lufada de ar fresco o podermos ser jovens e imaturos e coloridos e fofos, mas já é uma lufada a dar para o longuinha. Ao ler a letra do Frank Loesser (seja quem for) senti a permissão de ser adulta, sem macacadas nem fofices. Uma lufada de ar gelado que apreciei bastante. 

Fui reclamar dessas coisas todas ao Hugo, que estava deitado no sofá. Pus as pernas dele em cima das minhas e pus-me a falar e a falar. Ele não concordou com nada. Deve ser porque curte Nick Cave.

5 comentários:

gralha disse...

Como "pessoa que resmunga das coisas novas" só posso dizer que acho que há um grave problema de preguiça. O levezinho dá menos trabalho, nem que seja trabalho emocional.

Melissinha disse...

Eu não acho que dê menos trabalho, acho é que as pessoas andam a recusar-se a crescer, preferem chafurdar em infantilidades e tons pastel até mais não.

Eu gosto disso - adorei os tribalistas, por exemplo, adoro a banda do mar, adoro o Wes Anderson de paixão, teria trigémeos dele já -, mas... blablablá. :)

gralha disse...

Hei, eu adoro o Wes Anderson de paixão! Mas não acho que seja fluffy. Se calhar sou eu que vejo cenas muito profundas no que é suposto ser simples.

Melissinha disse...

É profundo, sim - e eu não acho que a adolescência seja superficial, nada disso, muito longe disso, mesmo. O Wes Anderson é um dos meus diretores preferidos, mas o tema recorrente é a busca do pai com todas as dores do crescimento. :)

Queria outro tipo de dores sem ser as dores do crescimento - quero as dores da maturidade. Estou velha.

Melissinha disse...

Estou há demasiado tempo numa onda young adult e a cravar, de craving, por uma onda mais Clint Eastwood - mas não encontro a oferta.

Dito isto, repito: o Hugo discorda, mas o Hugo é meio Wes. :)