domingo, 28 de junho de 2015

Não.

Subíamos a Almirante Reis, cerca de 23h, noite quente. Ele estava à porta da sopa dos pobres a espreitar para o interior, que estava obviamente fechada. Perguntámos-lhe se tinha fome. Claro que tinha. Levámo-lo a uma tasca, ele escolheu o jantar do menu, pediu uma coca-cola, café. Disse-nos que tinha um neto da idade do Gabriel, e dois filhos, todos em Alverca. Pagámos e despedimo-nos. Ele fez uma festinha na cabeça do Gabriel e apertou as mãos do Hugo. Olhou-o nos olhos com uns olhos que eu nunca tinha visto, como se fôssemos o seu Euromilhões pessoal. Sentimo-nos quentinhos ao sair da tasca.

Mas não. Não. Este quentinho envergonha-me por várias razões, deixo cá as duas maiores: uma é pela nobrezazinha barata e fácil: o quentinho de caridade, de superioridade. Não olhei nunca para aquele homem como um semelhante, olhei para ele como alguém que precisava de mim. E isso incomoda-me sobremaneira. Rejeito essa instrumentalização do homem faminto em prol das minhas endorfinas.

E a segunda razão: dar-lhe comida não deve ser, não pode ter sido um ato nobre. Tem de ter a nobreza de qualquer outro reflexo, que é, imagino, nenhuma: não nos sentimos bem por não deitar lixo no chão ou por respeitar uma fila. Dar comida a um homem faminto não pode ser diferente.

Nem merecia este post, se não fosse a vergonha de ter achado, nem que por cinco minutos, o ordinário, extraordinário.

7 comentários:

Julia disse...

Sinto exatamente o mesmo, e depois me sinto culpada até por dizê-lo, comentando aqui a nobreza de não me sentir nobre por fazer o que é esperado. No fim têm razão os radicais que dizem que não somos dignos enquanto um único humano estiver na miséria.

Melissinha disse...

Isso!

Melissinha disse...

Isso!

gralha disse...

Não.
O homem que comeu quer lá saber se te sentiste quentinha ou não. Soube-lhe bem comer. Não deixa de desejar que um dia não tenha de precisar de encontrar, fortuitamente, alguém como vocês, como tu e eu desejamos, mas soube-lhe bem comer. Não basta ensinar a pescar enquanto não houver canas para toda a gente.

Amigo Imaginário disse...

O extraordinário foi terem reparado no homem, na sua fome...

Melissinha disse...

Sem dúvida, Gralha, mas não pode ser extraordinário. Tem de ser feito, deve ser feito, mas sem quentinhos para mim. Só para ele.

Melissinha disse...

Sem dúvida, Gralha, mas não pode ser extraordinário. Tem de ser feito, deve ser feito, mas sem quentinhos para mim. Só para ele.