sexta-feira, 4 de março de 2011

Nirvana

Uma das personagens criadas por Herman José gostava de perguntar aos seus convidados onde estavam no 25 Abril. A pergunta tinha e, felizmente ainda tem, um sentido muito especial para a maioria dos portugueses. O momento, como se sabe, alterou a vida de todos e, recordar todas aquelas sensações, acaba sempre por ser um exercício aprazível com recurso a memórias que merecem ser partilhadas por todos os que participaram na revolução.
Para a malta da minha idade, que nem sabia falar em 74, a questão não faz muito sentido. Daí que se calhar, salvaguardando as devidas distâncias, o que mais se aproxima duma sensação de sentimento colectivo é talvez saber, onde estávamos no dia em que ouvimos pela primeira vez o Smels like a teen spirit dos Nirvana.

Corria o ano de 1991 e eu tinha chegado aos 18 anos o que me dava, pelo menos psicologicamente, uma certa liberdade. Podia agora ir ao Bingo, conduzir um carro, passear-me pelos casinos ou votar num partido e, embora não fosse um problema dada a minha incompetência com o sexo oposto, tinha também de ter algum cuidadinho com a idade de quem namorava porque nestas coisas a lei é cega, e já se sabe, podia ir mesmo de cana. Podem até parecer estúpidas as razões do meu contentamento, mas sentia-me o máximo em poder fazer isso tudo. Claro que constantemente me pediam o bilhete de identidade, ninguém acreditava que um petiz sem pêlo na venta tivesse chegado à idade que chegou, e o acto de mostrar a identificação cortava um bocado todo o triunfo do envelhecimento e dava um ar bastante amargo às minhas entradas nos sítios reservados aos adultos.

As noites de fim-de-semana eram passadas no mítico Johnny Guitar. Um clube decrépito em Santos gerido pela malta dos Xutos e dos Rádio Macau e onde se conseguia ouvir música pesada a noite toda. No entanto, a particularidade mais interessante é que a porta estava sempre aberta a quem quisesse entrar. Isso era um factor muito importante porque, normalmente, as saídas eram sempre em grupo e nunca havia raparigas na equação o que invalidava toda e qualquer tentativa de poder ingressar nas discotecas da moda. Ok, pronto, era uma tristeza, não se pode dizer que me pudesse orgulhar da minha vida social nocturna, mas independentemente de tudo, o Johnny Guitar acabou por se entranhar em mim e, a dada altura, já não o trocava por nada.

Podíamos ouvir tudo, desde Sisters of Mercy, até Red Hot Chily Peppers, passando por Metallica, Ramones, Iggy Pop, Ac/Dc, Guns and Roses, Led Zeppelin ou mesmo Smiths.
Os machos abanavam-se ao som das guitarras e das batidas fortes, lançando os cabelos longos para a frente e para trás e os mais audazes até conseguiam fumar no processo, o que não dava muito jeito mas que destilava bastante estilo, achávamos nós, para as 2 ou 3 miúdas que costumavam misteriosamente lá estar. Era, portanto, a melhor forma de cortejar os encantos e a alma feminina que, embora fossem um enigma, reinava aquela convicção parola que lá no fundo, a forma de sacudir o crânio teria a sua influência na hora de seleccionar os machos mais apetecíveis.

O ar estava sempre cheio de fumo, estávamos nos anos 90 e as discotecas eram um nevoeiro de cancro. Fumava-se muito e bebia-se também bastante, até porque o ingresso de 1000 paus dava para três cervejas ou 2 bebidas brancas. Eu estava na onda, emborcava vodka atrás de vodka, fumava cigarro atrás de cigarro e ficava para ali a abanar a carola ao som das músicas e, quando os solos de guitarra o justificavam, até puxava da minha guitarra imaginária e punha-me a solar como se fosse um Dave Mustaine, Jimmy Page ou um Slash. Era fixe a sensação de dominar um público imaginário com a destreza e a arte de dedilhar o ar.

E foi numa dessas noites que os acordes iniciais do Smells like a teen spirit exclamaram pela primeira vez das colunas e pintaram a escuridão do Johnny com uma loucura tão grande que ainda hoje sou incapaz de a descrever por palavras. A expressão dos nossos sentimentos era remetida para os saltos e gritos que partilhávamos, envoltos em suor, embebidos no hálito do álcool e no cheiro do fumo colado às T-Shirts negras com nomes de bandas. Saltar com aquela música era mais do que sexo, mais do que amor, era uma sensação de liberdade, raiva, frustração que se consumava no corpo através da dor resultante dum contacto físico mais ou menos violento duma pequena multidão em êxtase que se embrulhava em pontapés e puxões. Depois do final da canção ninguém conseguiu fazer mais nada além de ficar em silêncio, a tentar perceber o que realmente se passou. Acho que tínhamos mesmo atingido o Nirvana.

As músicas do trio de Seattle, especialmente do mítico Nevermind seguiam uma dinâmica de tom baixo/tom alto e a raiva que o Kurt Cobain expelia no refrão era duma sinceridade tão profunda que tinha tanto de comovente como de libertador e era essa veracidade impressa na sua voz e na sua figura melancólica que fazia com que toda a gente se sentisse tocada por ele.
Kurt Cobain acabou por se suicidar, como se sabe, e deixou literalmente o mundo a chorar com o choque. Os Nirvana foram talvez a última grande banda que tocou a tantos, de todas as idades, de todas as classes e de todas as ideologias.

Agora o mundo anda despido de valores e não é um sítio muito convidativo a ser feliz. Sente-se um cheiro a enxofre que se entranha nos poros e que acompanha os nossos passos como aquelas nuvens cinzentas dos desenhos animados. As pessoas andam mesmo perdidas e desesperadas. Por isso é que é ainda tão bom recordar músicas como Breed ou Stay Away. Ouvir Cobain gritar com aquela voz rouca provoca-me sempre um estado de libertação do sofrimento.
E é como se ainda estivesse no Johnny a pular…

11 comentários:

Ana. disse...

Hugo, you're back!!!

Tenho que te dizer (correndo o grande risco de ser repetitiva) que escreves de car@lhinho!!

Acho que devias reunir os teus textos, juntar mais meia dúzia e apresentá-los a uma catrefada de editoras para publicação!
Isto é bom de mais para ficar por aqui!
;)

Hugo Carvalho disse...

agradeço a confiança a sério, mas és cá uma exagerada... ;)

Melissinha disse...

Eu ouvi pela primeira vez em Sevilha, numa visita de estudo. Um gajo, o Gonçalo, comprou o CD no Corte Inglês, aquele templo. (Eu preferi comprar um frasco de perfume Don Algodon e o 12 poemas de amor e uma canção desesperada do Neruda, para me armar).

Tinha 15 aninhos. Seríamos um casal ilegal.

Melissinha disse...

E concordo com a Mê, concordo sempre.

Ana. disse...

Ahaha!
Admito que às vezes me dá um pouco para a hipérbole, mas garanto que não é caso!!
E não tarda nada, eu e a Mel delineamos uma estratégia infalível e ainda acabas a escrever crónicas para o Público!!

Isso é que era!!

Pekala disse...

não é exagero não,também amo de paixão os teus posts!!!!escreve mais please!

Ana C. disse...

Eu acho é que isto é muito melhor do que o Nuno Markl.
Melissa, também usei Don Algodon e comprei este Cd numa "Loja da Música" que havia em Cascais, no tempo em que Cascais tinha lojas sem ser do chinês.
Pulei tanto, despenteei-me tanto ao som desta pérola da minha juventude, fuck, que memórias que este cd me traz...

Irina A. disse...

Não posso deixar de concordar com as senhoras gajas. Tu escreve Hugo, tu escreve, escreve que tu sabes escrever.
É que honestamente, por vezes vejo a circular pela net textos que vão sendo partilhados por uns e outros que não valem a ponta de um cornito, e depois leio o Hugo e o Hugo escreve coisas que nos captam a atenção e o interesse. Desde que li a tua carta ao Nódoa que sou tua fã :)

É uma pena ver umas gajas merdosas a escrever para jornais, e depois gente que realmente escreve fica eternamente no armário.

Escreve, Hugo, tu escreve, carago!

InêsN disse...

Trocando o Johnny Guitar pelo Rockine, também eu pulei, gritei, bebi, fumei que nem uma louca...

obrigada por me teres feito reviver esses tempos memoráveis! :)

Melissinha disse...

Cê, era aquela loja ao pé da Benetton? Comprei lá o primeiro CD da minha vida.

mm disse...

Não me lembro da primeira vez que ouvi o Nevermind, mas lembro-me com saudade do Johny Guitar: Rage against the machine, "Three Little Pigs" dos Green Jelly, Clawfinger, etc... e copos de bebidas brancas cheios até ao topo...
Adorei o texto.