quinta-feira, 14 de abril de 2011

O tesouro

As cinco pessoas que por cá vão passando já leram mais de mil vezes o quão desapegada eu sou: demasiado desorganizada para manter seja o que for por mais do que o período estritamente necessário, ter coisas é algo que me dá comichão. Os objectos aqui em casa voam daqui para fora sem dó nem piedade.

Freud há-de explicar, mas eu gosto - como também já disse.

No entanto, esta moça tem um tesouro. Um tesouro maravilhoso que leva consigo nas mudas de casa, de vida, de país. A primeira coisa que procura quando chega a um novo pouso. E a primeira coisa a que recorre quando precisa de coragem.

A minha avó era de uma família rica de Caucaia. Até hoje, há hospitais e escolas com o seu nome de solteira. Já o meu avô era da beira da praia, veio de Icapuí para Fortaleza montado num jumento ainda em bebé, na década de 20 (ou antes, não sei). Sem nome e sem fortuna, apenas ganas e garra. E não ia tirar a Lourdinha da casa dos pais para lhe dar menos do que ela merecia. Assim, em 1941, julgo eu, parte do Ceará para o Amazonas para fazer um nome para si e casar com a noiva nos termos dela. Voltou depois da Guerra, julgo eu, em 1946.

As cartas que lhe escreveu nesse período, cheias de planos, de ideias para negócios, mexericos e, sobretudo, de muitos sonhos por concretizar são o meu tesouro.





11 comentários:

angela disse...

Este é que é um tesouro!
Compreendo esse desapego. As mudanças ensinam-nos a estimar o que é verdadeiramente de estimar.

Joanissima disse...

que coisa tão absoluta e maravilhosamente LINDA!!!

és uma privilegiada, tu!!!

Daisy Stewart disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Irina A. disse...

Isto sim é dos post mais bonitos que li até hoje na blogosfera. Que coisa mais maravilhosa!

Melissinha disse...

Dava tudo para ter as respostas dela para ele, mas perderam-se.

O próximo post será com trechos dessas cartas, para verem que história bonita foi aquela. Uma história de luta.

Precis Almana disse...

Que máximo, melissinha! Mas trata de saber como conservares isso, o papel vai ficando corroído e qualquer dia não o tens... Juro que não estou a agoirar, é que tenho o mesmo problema de cartas escritas entre os meus avós - quando ele vinha a Portugal e ela ficava em Moçambique - e falaram-me em não sei quê de papel de arroz. Tenho que voltar a falar com a minha amiga arquivista, é o que é.

Melissinha disse...

Guardo-as em micas normalíssimas, mas é bem lembrado, Precis. Vou-me informar.

A mãe que capotou disse...

:)

Ana C. disse...

MAS ISTO É MARAVILHOSO!

Tella disse...

LINDO!

Melissinha disse...

AnaCê, ainda pomos a minha história a render.