quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Falhar feio

- Vou-te buscar ao lanche, ok? Não vais para o ATL, hoje vamos ao Ikea.
- Ao lanche? Fixeeeee!
- Sim, não é preciso ires para o ATL, espera-me lá em baixo.

Pois.
Mas hoje foi o primeiro dia de folga numa longa fila de dias doidos e eu... deixei-me adormecer. Acordei 23 minutos depois da hora combinada. Cheguei lá e estava o meu filho no ATL a brincar sozinho a um canto, dececionadíssimo, olhos vermelhos de chorar. Disse-me a auxiliar que depois do lanche, ele vestiu o casaco, pôs o gorro, agarrou na lancheira e pôs-se à porta. As mães começaram a chegar, e nada da dele. E chegou a hora de subir para o ATL, e nada de eu chegar, e aí ele abriu o berreiro. Abriu mesmo a sério: ele, que nunca tinha chorado na escola. "Vi as pernas de todas as mães, menos as tuas". Meu Deus, podia dar-lhe o mundo em Playmobis naquele momento se soubesse que iria melhorar alguma coisa: não nele, mas em mim - a fé dele na mãe restaurou-se num sorriso quando me viu ali à porta da escola, 36 minutos depois do combinado.

Hoje foi o dia em que o Culpossauro descobriu o que é culpa de verdade: não é um nagging feeling de insatisfação, mas sim, um completo atestado de inaptidão que passamos a nós mesmas. Fui terrível. Fui péssima. Magoei-o, justo a ele, a pessoa que me ama com menos reservas do mundo, que espera de mim aquilo que digo, sem contestar. E sim, sei que isto parece dramático, mas morro de medo de perder a confiança dele, nem que seja por um dia.

E por ter adormecido, foda-se. Não foi um pneu furado.

Aconteça o que acontecer, amanhã às 15h lá estarei, na hora do lanche.
O trabalho pode esperar.

8 comentários:

Carolina Alfaro de Carvalho disse...

Mel,

Primeiro, seria preciso fazer um esforço enorme para errar demais até que ele perca um fiozinho de confiança em você.

Segundo, a verdade é que mães são humanas - erram, se complicam, ficam exaustas. Você não estava no cinema, apenas foi vencida pelo cansaço acumulado. Pode ser uma oportunidade de mostrar que você, assim como ele, faz o melhor possível e ainda assim às vezes falha. E de mostrar o que é estar arrependida e compensar com uma dose extra de bons momentos juntos. E assim ele aprende também que cabe a ele compreender, mesmo que nem sempre seja divertido, e sente na prática como deve se comportar alguém depois de errar, pois certamente vai acontecer com ele também.

Um abracinho nos dois.

Melissinha disse...

Obrigada, Carol. Tudo que diga respeito à maternidade é ampliado mil vezes, é tudo gravíssimo, indesculpável.

Raio de emprego.

Ana C. disse...

Eu mandei-te dormir, eu!!! A culpa é toda minha, Gabi!

Amigo Imaginário disse...

Podia contar-te uma cena no duche que durou horas, enquanto os miúdos esfomeados esperavam pacientemente... Esse sentimento de culpa é altamente corrosivo, portanto, esquece! O Gabriel achará sempre que és a melhor mãe do mundo. E para ele és mesmo! :)

CrisLhorca disse...

Mel, a Carolina já disse tudo. Força. :)

gralha disse...

Ohh (pelo Gabriel). E ohh (por ti). Mas é mesmo verdade que ele hoje vai estar à tua espera com a mesma confiança inabalável. Beijinhos e chuto no culpossauro.

Naná disse...

Fogo, até me deu um aperto no coração... nenhuma de nós está livre de nos suceder uma dessas... e é terrível mesmo!

Sabes o que te digo? Faz-lhe uma surpresa um dia destes!

Maldito culpossauro materno!

dona da mota disse...

Ele hoje já nem sem lembra mas sim, uma surpresa vai eliminar qualquer vestígio de C.... calcário, deixa a culpa para outras coisas...