sexta-feira, 23 de maio de 2014

O mastologista que seguiu a minha mãe era de poucas palavras e menos crenças. Foi ele que, junto com a minha prima, veio falar comigo naquele dia, na cozinha da casa da minha tia, enquanto a minha mãe dormia no quarto. Eu estava atónita, porque a conversa era surreal. Falávamos da morte iminente da pessoa mais importante da minha vida. Falávamos em pormenores técnicos da morte de uma pessoa que, a poucos metros de nós, se agarrava com forças a tudo que ainda tinha para dar. Lembro-me bastante bem da conversa, mas não a vou reproduzir. Primeiro, porque me vem sempre à cabeça que menti à minha mãe durante os quatro dias que separaram o dia em que soube que ela iria morrer e o dia em que ela morreu, e,dez anos depois, ainda não estou bem com isto. Segundo, porque não está na hora, ainda está muito fresco na minha memória. Quando sentir que a coisa está a escapar-se, escrevo-o na íntegra, sem pudores, porque este blog já foi assim e quer voltar a sê-lo (obrigada, Amigo Imaginário, por me lembrares disso acidentalmente).

Mas voltamos ao mastologista. A dado ponto daquela conversa de doidos sobre a morte, eu pareço entender que, naquele momento, não estava a falar de uma história qualquer doutra galáxia. Era da vida da minha mãe, da minha vida. Então perco a voz, só me sai um sussurro: "S., (a prima), mas eu... eu ainda vou-me casar. Ainda vou ter filhos. E ela... Onde é que ela vai estar?"

A S., cansada do ano inteiro de cancro da tia que acompanhara de perto desde o diagnóstico até àquele fim, frustrada por a medicina, a sua profissão, lhe ter falhado com uma das pessoas que mais amava, agarrou-me com força a chorar muito, a dizer que ia lá estar, ia lá estar em todos os momentos, que aquelas mulheres da minha família, irmãs e sobrinhas da minha mãe, não me iam largar nunca sozinha (e cumprem isso.)

O mastologista, com a calma de quem já deu aquela notícia N vezes, disse-me simplesmente que eu podia confortar-me na certeza da transformação. Que era algo que não dependia de crenças. A minha mãe transformar-se-ia em energia e andaria cá para sempre. Estaria sempre por aí.

Nada me podia ter consolado mais, naquele momento louco.

8 comentários:

Joanissima disse...

Emocionaste-me tremendamente. Ttremendamente.

Ginguba disse...

Oh pá, Melissa...

Naná disse...

Melissa isto é tramado de ler no meu estado actual... Mas alguém, um amigo meu disse o mesmo umas semanas antes da minha mãe morrer. Que nós somos energia e que ela ia apenas assumir outra forma.

Acredito que um dia vou ler esta história na íntegra!!

andarporai disse...

Emocionei-me muito, muito.
Eu sei... eu sei o que é esta conversa surreal.
Passaram 7 anos e só agora dei conta que um dos nós que trago no peito (são vários, alguns sei a causa e até têm um nome, outros não) tem a ver com a mentira... com este tipo de mentira.
Ó meu Deus, um dos "nós" é por isto e só agora ao ler é que percebi... a partir de agora este "nó" já têm um nome - mentira.

E se fosse hoje?
Eu mentia/escondia outra vez?

Continuo a chorar...

Obrigada pelo texto.
Obrigada.

Paula

Melissinha disse...

Paula, de certeza que mentiste pelo mais nobre dos motivos.

Mesmo a sentir-me mal hoje, faria tudo outra vez para a poupar de uma realidade para a qual ela não estava pronta. Mil vezes este peso do que o que lhe poderia causar.

andarporai disse...

Hoje pensei sobre isto tudo, outra vez, mais uma das "milhentas"...
Estive em casa da minha mãe.
Falei à minha irmã deste texto (foi ela que me falou a 1ª vez deste blog, porque gosta muito).

Obrigada pela partilha, mais uma vez.

Paula

gralha disse...

Não é exagero quando digo que tenho aprendido muito contigo sobre como lidar com a perda. Obrigada por essa dádiva.

(há uma semana, num funeral, a chuva a cair impiedosamente e eu, abraçada ao meu primo, a pensar: é verdade, há mesmo beleza no meio disto tudo)

Amigo Imaginário disse...

Obrigada, Mel.

(e de repente senti saudades da minha mãe, que está a envelhecer sem mim, lá longe)