segunda-feira, 27 de julho de 2009

da maternidade

Gosto:

- Morro de orgulho de, sendo uma pessoa caótica e cheia de pequenas falhas, ter feito metade de uma pessoa tão normal e tão perfeitinha, com mãozinhas e bracinhos e barriguinha.
- Acho que agora somos mais família do que quando éramos só um casal. O Gabriel solidificou-nos enquanto instituição e dá-me a sensação de que estamos aqui para ficar.
- Adoro todas as novas nuances do Hugo, que se revelou o melhor pai de bebé de que já tive notícia. Nesta casa, as tarefas com o Gabriel são divididas MESMO. Ninguém ajuda ninguém. Isso só faz crescer o meu amor por ele.
- Agora é a lamechice: adoro a existência do meu filho. Adoro o cheirinho e os sons, e as caras, dele a fazer cocó, a bocejar e a meter a mão na boca. Adoro as coisinhas que vão mudando dia após dia, o som do choro, as gargalhadas, o volume de baba. Adoro sentir que ele já me reconhece. Adoro o seu feitiozinho, igual ao do pai. Tem cara de Lyra, mas personalidade de Carvalho. Não podia ter pedido melhor.
- Gosto muito de algumas competências que adquiri: um bebé traz todo um conjunto de novos conhecimentos e todo um mundo novo para descobrir. Sempre adorei aprender coisas novas e formar opinião sobre elas. Adoro tomar opções.
- Adoro, simplesmente ADORO ver como a minha família é doida pelo Gabriel. Vê-lo com o tio é um gozo, com o avô também. Cada um tem menos jeito e mais carinho do que o outro. Também é uma delícia vê-lo com a Lurdes e com a Isabel, cada qual dentro do seu estilo. O meu filho tem todo o amor que precisa para crescer.


Não gosto:

- da depressão pós-parto, ou depressão maternal, não sei bem: existe, e doeu muito. Logo que o Hugo voltou a trabalhar e dei por mim sozinha em casa, comecei a ter crises de ansiedade, choro convulsivo, sensação de perda profunda. Detestava tudo isto. Até que passou – embora, sim, haja momentos horrorosos nesta aventura.
- Sinto muitas saudades das minhas amigas, não por elas estarem longe, porque são amigas com A grande e não se afastaram nunca, mas é porque a maternidade aliena, mesmo. Deixei de ser a pessoa que era antes. Aliás, melhor será reformular: sinto muitas saudades de mim mesma.
- Acho que já não tenho tanta piada quanto tinha antes, e perdi alguma inteligência também. E interesses, perdi alguns interesses, e eu era uma tipa cheia deles.
- De estar sempre à disposição do Gabriel: um filho é o pior patrão que existe. Não podemos ter enxaquecas, dias maus, sono. Não há espaço para nada enquanto ele está acordado.
- Sair com o bebé é uma seca cheia de preliminares.

Coisas que eu esperava que acontecessem e (ainda) não aconteceram:

- Sentir-me afastada do Hugo e incomodar-me com os nossos silêncios. Antes estávamos sempre a falar, tínhamos sempre assunto. Agora temos silêncio ou assuntos do bebé. Mas não me sinto minimamente afastada dele, muito pelo contrário. O cansaço une.
- Instinto maternal. Estou plenamente convencida de que é mito urbano. Criar um filho é uma tarefa aprendida com sangue, suor e gargalhadas todos os dias. Nunca senti instinto nenhum e agradeço a Deus o meu filho nos ter sobrevivido enquanto ainda não sabia nada de nada.

Aliás, mesmo depois de já sabermos umas coisas, a parentalidade troca-nos tanto as voltas que agradeço a Deus o meu filho sobreviver-nos todos os dias.

7 comentários:

Ana C. disse...

Este blog anda muito bom :)
Adorei cada linha deste desabafo materno e revi-me em muitos aspectos.
Quanto ao instinto maternal concordo e não concordo.
Penso que não é como o pintam, do género perceberes logo o que é que o puto tem quando berra, olhares para ele e veres que vai ficar doente etc, pois tudo isso é aprendizagem sim.
Mas sinto que ele está cá quando desperto ao mínimo gemido da minha filha a dois quartos de distância, ou quando sei que sou capaz de matar alguém que lhe faça mal. eu a gaja mais pacata do mundo.
Há coisas que cresceram connosco e com o conhecimento que fui tendo da minha filha, agora há outras que despertaram em mim e que não estavam lá antes ;)

Melissinha disse...

Pois, mas sabes que eu só oiço o Gabriel quando ele já berra a plenos pulmões. Faltam-me peças!

Talvez com o tempo melhore. Vejo as mães de miúdos de 2, 3 anos a lerem-nos na perfeição, daí eu achar que é algo aprendido e não instintivo.

Tens razão quanto ao proteger a cria, isso é orgânico, mesmo. Acho que qualquer mãe levanta camiões para tirar um filho de baixo (acho até que isso está documentado algures.)

Quando falei em instinto maternal pensei mais no amor e paciência sem limites e saber exactamente o que fazer, como uma macaca na selva.

Ginguba disse...

Fui Mãe muito cedo, talvez cedo demais, senti tantas contradições que estão aqui traduzidas, que estou literalmente há meia hora a pensar numa coisa inteligente para acrescentar!
Só consigo dizer (depois de ver as fotografias): O seu bebé tem um ar tão feliz! Continue...Está a lê-lo direitinho!

Melissinha disse...

Ginguba, bem-vinda! Aparece sempre, a casa é tua também. :)

Ginguba disse...

Obrigada, voltarei certamente!
Já espreitava este blog há um tempinho mas com este post senti uma vontade irresistível de comentar!
Até à próxima então.
:)

Bailarina disse...

tá qq coisa este post! concordo com muita coisa!!!aprendi a conhecer este pirralho muito cedo, mas há dias em que penso que afinal não conheço nada!nunca me senti deprimida mas tenho tantos medos e choro por isso! por ter medo de morrer e não o ver crescer...enfim...
De resto, gosto de tanta coisa que nem as consigo enumerar, mas que a aprendizagem mais cansativa de uma vida não tenho duvidas nenhumas!
beijo grande

Mafalda disse...

há tanta sinceridade nestas palavras... :) e eu revejo-me em muitas delas. **