terça-feira, 30 de junho de 2009

Nora

Não, não é o Gabriel que arranjou namorada. É a Nora do Irmãos e Irmãs que mexe comigo.

As saudades que tenho da minha mãe aparecem como as infecções oportunistas: quando o sistema imunitário está em baixo, atacam feio e forte.
Tendo um medo enorme de me deixar sofrer, construí ao longo dos últimos anos um "sistema imunitário" que me permite viver sem os grandes sobressaltos de dor que assolaram a minha vida nos meses que se seguiram à sua morte. Só quem perdeu quem mais amava sabe como são esses sobressaltos de dor: são físicos. A cabeça anda à roda, ficamos com a garganta seca e taquicardia. É assustador e paralisante, daí eu me ter negado a fazer um luto adequado e simplesmente ter enfiado tudo cá para dentro, em mais sentidos do que um só.

O meu pai há dias disse-me que ficou muito preocupado quando lhe disse que estava grávida, pois que bela ocasião para me desmontar toda. Mas não, aguentei bravamente. Quando me falavam da minha mãe, mudava de assunto rapidamente, quem falava entendia o recado e pronto, ficava tudo resolvido. E assim seguia, e assim tive o meu filho, sem pensar muito.

Mas a Nora a dizer à Kitty para ir tomar um banho de espuma e ir dormir, que ela ficava com o bebé, destruiu-me. Mesmo. Não aguento sequer pensar na cena sem que os sobressaltos de dor voltem.

Enfim. Pronto, ficou o registo.

9 comentários:

Ana C. disse...

Eu vi essa cena e senti precisamente o mesmo que tu, apesar de graças a Deus a minha mãe ainda estar comigo.
Senti como faz falta uma mãe quando temos um filho, para cuidar de nós que apenas cuidamos. Para nos mandar descansar, enquanto ela se cansa por nós, para velar por nós quando sentimos que a nosssa tarefa aqui na terra é apenas velar pelo bebé.
Acredito que te deva ter doído bem fundo quando viste a cena da Nora com a Kitty, pois a mim comoveu-me.

Ana C. disse...

A minha mãe nunca me mandou ir dormir para ficar com o saquinho de choro. Mas saber que tinha essa hipótese em carteira, ajudou.
Gostei muito deste post. Tanto que vou ficar a pensar nele...

Mafalda disse...

eu adoro essa série... e adoro a sally field, por todas as emoções que ela, com um simples olhar, me faz sentir. sei bem que cena é essa de que falas. Tendo ou não mãe, acho que todas nos sentimos vulneráveis na maternidade e todas queremos ter esse elemento materno por perto, para nos confortar e dizer que apesar de mães, também somos filhas e que ainda gostamos de ter um colo onde nos refugiar.

um beijinho*

Melissinha disse...

Ana, provavelmente a minha mãe não faria nada daquilo. Era uma mulher dura, independente e cheia de coisas para fazer, sempre. Não seria uma Nora.

É o nem sequer saber como seria que faz doer, mais nada.

Humildevaidade disse...

Um dos posts mais bonitos que já escreveste. Está lindo de duro e real.

E a Ana tem mesmo razão... precisamos de alguém que cuide de nós quando passamos a cuidadoras intensivas.

beijo

Marina disse...

Não consigo imaginar a dor... Só te desejo que continues a ter força para superar. Um beijinho e um abracinho *

Supertatas disse...

a minha mãe é uma Nora a 300%
por isso somos todos um pouco walkers, sempre sempre a discutir...

Melissinha disse...

Eu, o meu mano e o meu pai também somos Walkers, tudo aos berros e os inlaws a falar mal de nós.

Borboleta disse...

Todos os dias penso como seria se o meu pai ainda estivesse vivo. Todos os dias o meu coração fica apertadinho quando dou conta que a L. nunca vai conhecer o avô e que nunca vou poder vê-los juntos...
Dói, ai se dói...

:) Beijinhos