sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Elogio da tristeza

Das coisas que mais me lixaram na vida foi achar que estar triste me afastaria das pessoas que gostavam de mim (e das quais comecei a precisar enormemente depois de a minha mãe morrer).

O Hugo veio viver imediatamente comigo depois da morte da mamãe, e a minha prioridade era ter um casamento lindo e feliz. E de ser divertida, engraçada, cheia de interesses e coisas boas para oferecer. Estou a falar do período imediato à perda: duas, três semanas depois. O meu esforço foi todo para trabalhar demais, sair várias vezes, rir-me muito, ser fabulosa e imprescindível.

Nos intervalos, passei a explodir em pânico dentro do carro - que era o "meu" espaço, ou dentro de casas de banho, ou no meio do shopping - desde que estivesse sozinha. Às vezes tudo se tornava demasiado assustador e novo e telefonava ao meu pai - mas era assustador e novo para ele também, e nunca corria bem. Então eu engolia mais uma vez e contava uma piada. Tinha de ser linda e bem resolvida.

E, dois meses depois, tinha ganho 15 quilos. Mais 15 no ano seguinte. Mas nada de tristeza. Nada de chatear ninguém.

Caramba, de onde é que eu tirei essa ideia absurda de que não podia deixar-me cair durante uns tempos? Será que tive as pessoas à minha volta em tão baixa consideração que pensei que me iriam deixar perdida na enormidade do que me tinha acontecido? De onde é que tirei isso tudo? Não faço ideia.

Na verdade, faço ideia, sim: mamãe valorizava a resistência em todos os aspectos e eu simplesmente queria estar à altura, como sempre.

Há uns anos, li uma citação de não sei quem: "A tristeza é a maior aliada contra a depressão". CARAMBA. E não é que é verdade? A tristeza tem uma função, não é perda de tempo. Há por aí um livro que se chama "Todo sofrimento é inútil". Não parei para folhear nem nada, mas agora sei, mais do que todo mundo que conheço, que há sofrimentos que têm de ser vividos. Não vale a pena tomar a aspirina.

Ganhei uma gigantesca honestidade de sentimentos de uns anos para cá. Admito o que sinto - nem que seja só para mim mesma, que isto de contrariar crenças transmitidas pelas mães não é das coisas mais fáceis do mundo. Estou bem resolvida, não estou bem resolvida. Sinto inveja, imito, admiro, não sou cool, deslumbro-me com coisas certas e erradas.

E aceito a tristeza como aquele tipo de amiga inconvenientemente verdadeira, que enche o saco com um monte de verdades não solicitadas.

5 comentários:

Naná disse...

Melissinha, quando a minha mãe morreu fui egoísta e fiz o luto à minha maneira, tive e dei-me tempo para fazê-lo! Chorei a bom chorar, quando queria e precisava! Para no fim do choro secar as lágrimas e lembrar que a minha mãe quereria que eu seguisse em frente!
Quando o meu pai morreu, quis fazer tudo de novo, mas não pude, não me deixaram! O trabalho com as suas exigências, a sogra dentro de minhas portas, não podia desatar em prantos! E não quis que o meu pequeno filho me visse assim!
Por isso, engordei 5 kgs em um mês! Ainda hoje não estou resolvida, porque não pude "esgotar" toda a tristeza que sentia e que ainda sinto!
Por isso, quando li este teu elogio compreendi cada linha!

gralha disse...

Amen sister!

(e obrigada pela coragem de partilhares isto aqui, nesta montra de perfeições aparentes que é a blogosfera, onde há tanta gente a precisar de um par de estalos para acordar para a vida)

Ana C. disse...

Estarmos tristes, quando temos que estar tristes é tão importante...
Uma das coisas que sinto a maior falta, desde que fui mãe é, muitas vezes, ter que engolir lágrimas para não afligir a criançada. Meter para dentro faz terrivelmente mal à saúde...
Este post também está gourmet.

JS disse...

Tu és das pessoas mais fabulosas, genuínas e honestas que eu já vi.

É um privilégio muito grande poder vir aqui ler-te um bocadinho..

Melissinha disse...

Hehe. Corei.
Obrigada, Joana.