quarta-feira, 23 de outubro de 2013

E tudo o vento levou

Vi-o vezes sem conta com a minha mãe, que era menina que gostava muito de ver filmes muitas vezes. Não, não seria para refletirmos sobre a escravatura e a guerra civil americana; encantava-nos os vestidos, os bailes, as belles terem de dormir a sesta a seguir ao almoço, com escravas e abanicos. Adorávamos os espartilhos. Sim, vendo bem, víamos pelos vestidos mais do que pelo drama - se bem que muito palpitávamos sobre tudo. Lembro-me de que a minha mãe ficava especialmente possessa quando a Melanie estava em trabalho de parto e a escravinha vinha sem pressa nenhuma pela rua acima. Levou uns estalos da Scarlet, mas mamãe achava que devia ter sido uma surra a sério. O Rhett Butler era um canalha, como é que a Scarlett foi na conversa? Não se entendia uma coisa daquelas.

E a Bonny... Adorávamos a Bonny. Quando tivemos um leitor de vídeo pela primeira vez, estávamos sempre a rebobinar para ver as cenas da Bonny. Mamãe dizia que a Scarlett era muito má mãe e má mulher, porque o Rhett finalmente se endireitara por amor à menina. E no fim? Ficávamos doidas porque a Scarlett percebeu que afinal tinha um bom homem dois segundos tarde demais. Esperávamos sempre que chegasse um pouco mais cedo a cada vez que víamos o filme.

Mas a questão fraturante do filme era: seria a Scarlett mais rica em solteira ou depois de casar com o Rhett? Passámos anos a fio entrincheiradas nas nossas posições. Para mim, a mansão do começo do filme é imbatível. Para a mamãe, são os mognos da casa em que a Scarlett foi abandonada.

Lembro-me de ver o filme outras vezes já mais crescida, já com conhecimentos de inglês e de história para ir percebendo o drama. O Hugo ofereceu-me uma edição especial em DVD pouco tempo depois de começarmos a namorar e adorei beber toda aquela informação. Vi tudo algumas vezes.

Mas nada bate os vestidos.
E sim, o nome da minha mãe não é uma coincidência, embora a minha avó, outra fã incurável do filme, tenha inventado uma desculpa qualquer para o padre a batizar. Não lhe deu o aceso nome de Scarlett, pois teria sido impossível, mas optou pela personagem mais doce. O padre aceitou. A condição parece ter sido um Maria à frente. 

3 comentários:

Cat disse...

Ai sou também uma fã incurável, já perdi a conta às vezes que vi, sei as falas de cor e tenho o sonho de o ver numa tela de cinema!

José Lyra disse...

Bonito filha, ....no mais e com pouca metafora prefiro ..e o vento levou...sem o "tudo". Bjs.

Julieta disse...

Também vi esse filme inumeras vezes com a minha irmã.