segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Cromos

A sala entupida de jovens hipsters do primeiro ano do curso de cinema, eu constrangidíssima, porra, onde é que me vim meter, o Hugo só dizia: caga. Não consegui cagar, sou demasiado self conscious para cagar nessas coisas, mas tudo bem, queria vê-lo e ouvi-lo, porque o adoro francamente. Mas por algum motivo achava que só eu e mais uns quantos tinham direito a adorá-lo, nunca miúdas de 21 com roupa da Outra Face da Lua e três riscos de eyeliner. Mas tudo bem, adiante.

O filme é maravilhoso. Não menos que maravilhoso. Tão incrível (e tão Wes!) que até encomendei uma cópia na Amazon, pois faltavam dois trechos na versão que o Paulo Branco miraculosamente encontrou para exibir (é a única cópia em filme que existe). Mas também não vou falar sobre o filme, vejam-no, é uma explosão de vida, de movimento, de entradas e saídas, uma Sofia Loren a quem até eu fazia um filho, um filme incrivelmente colorido sendo a preto e branco. Do ano que em mamãe nasceu. Mas adiante, que o post não é nem sobre o Wes nem sobre o Ouro de Nápoles.

Na fila da frente, a destoar das 350 groupies mal vestidas e de mim e do Hugo (e do Willem Dafoe, já agora, que estava em modo furtivo no meio da sala), um miúdo de cerca de 12 anos e o seu pai, um careca de uns 40. Pensámos: o pai queria ver um clássico italiano raro e arrastou a pobre criança, que calvário, esperemos que tenha trazido um tablet ou algo assim. Lá vimos a apresentação, o filme, até aí nada de tablet nem de bufanços pré-adolescentes... E aí acabou o filme e começou a conversa com o público. E o miúdo iluminou-se. Seguia o microfone com os olhos, ouvia as perguntas, o pai sussurrava-lhe traduções ao ouvido, o miúdo ria-se das piadas. E aí entendi: não foi o pai cinéfilo que arrastou o miúdo. Foi o miúdo cinéfilo que levou o pai a ver o seu ídolo. Que bom, que quentinho.

Não escolhemos os cromos que calham aos nossos filhos. Podemos, quando muito, estimular áreas X ou Y que consideramos importantes. No caso aqui de casa, nem isso fazemos, limitamos a levar a cria para todo o lado, sem objetivo nenhum - e ele vai escolhendo para si as peças que mais aprecia, com total liberdade. Não gosta muito de teatro, por exemplo. Aguenta bem a maioria das exposições que vamos, e muitas vezes já o vimos parar diante de algumas peças. Já ouvimos perguntas e inquietações. Nunca o forçamos em direção nenhuma nem fazemos coisas com objetivos "educativos". Deixamo-lo construir-se e explorar à vontade.

Mas caramba, como eu adoraria poder escolher o cromo da cinefilia para o Gabriel. 


3 comentários:

gralha disse...

O Wes Anderson esteve cá?? Pá, eu também queria ter brincado às groupies.

Não sei qual é a dúvida que o Gabriel escolherá bem os seus cromos. E depois tem para a troca com a mãe, e tudo, já viste? Também deve ser muito fixe ter filhos adultos.

Melissinha disse...

Queria que ele fosse cinéfilo para me ensinar coisas. :)

Naná disse...

Eu queria que o Filipe tivesse o cromo de ler livros e de ouvir boa música!

Por isso, lá em casa há sempre livros a serem comprados e o rádio toca as bandas preferidas dos pais. O pai ainda sonha com um filho que despreze o hip-hop tanto quanto ele...