sábado, 23 de janeiro de 2010

As salas da vovó Lourdinha

A casa da Carlos Vasconcelos era claramente dividida em duas partes. Quando entrávamos vindos da varanda, à esquerda, tínhamos uma sala de visitas impecável, com sofá e cadeiras de palhinha, almofadas aveludadas, bibelôs nos sítios certos. Logo adiante, uma mesa de jantar comprida, preta, com as respectivas cadeiras, um bom centro de mesa, cristaleira, talvez tapete - o tapete pode ser produto da minha imaginação, pois sou de uma zona quente onde os tapetes estão sempre um bocado a mais.
Estas duas salas ocupavam um espaço gigantesco. Toda a minha casa caberia nesse espaço, sobrando ainda, provavelmente, um bom terraço.
Mas ninguém as habitava, eram salas mortas. Como um plateau, um cenário. Estavam sempre limpíssimas e em ordem, inanimadas.
(Algum primo vai surgir e dizer que estou a ser injusta, porque os amigos secretos eram lá. Tá bem, pronto, a sala de jantar era usada uma vez por ano, mas não era para comer.)
Mas... havia uma portinha. Não era um portão, era mesmo uma porta estreita, padrão, para passar uma pessoa de cada vez.
E, ao passar dessa portinha, a vida da nossa família explodia diante dos nossos olhos, com todas as suas gentes e hábitos. Uma outra sala de estar, com cadeiras desconjuntadas e espreguiçadeiras de lona enfileiradas de frente para uma velha TV. A minha avó na sua cadeira de baloiço, a crochetar uma colcha, alheia, vendo a novela, berrando com este ou com aquele. Sempre uma ou outra pessoa sentada nas cadeiras, visita ou família, que era repreendido cada vez que a interrompia. Da cozinha, à direita, cantava um rádio, a empregada, um ou outro tio ou primo que fosse penicar alguma coisa.
À esquerda, também havia a sala de jantar verdadeira, talvez de fórmica, talvez de outro material qualquer, com uma toalha bem lavada, com cadeiras velhas, onde todo mundo que chegasse tinha lugar.

Quem não passasse da portinha - portal? - acharia, pelas salas-múmia, que éramos emperdenidos, emperdigados, enfadonhos.
No entanto, éramos todos tão vivos e barulhentos e estridentes e comilões do lado de lá, só para nós mesmos, só para quem merecesse.

E agora com licença, que vou ali chorar um pouquinho de saudades.

10 comentários:

Ana. disse...

Crochetar?!!

;)

Melissinha disse...

É mais que fazer crochet!

Márcia disse...

Que memória linda!!!

E levou-me lá atrás, à minha infância e às festas em casa dos meus avós...~

Beijos grandes,
Márcia

Precis Almana disse...

Sorri por poderes ter essas memórias. É tão bom!
É o que eu faço, de cada vez que me lembro de pessoas que já não estão cá, de lugares que têm lugar nas minhas recordações...

Melissinha disse...

Para guardar tudo no mesmo sítio, deixo aqui o comentário da minha prima Suzy, que chegou por mail:

É muito lindo!
Principalmente quando algum pensa o mesmo pensamento.
é só fechar os olhos e reviver.
todos juntos, todos os sons, todos os cheiros, todos os gostos e principalmente todos presentes, que infelizmente só poderão estar nesses momemtos.

Saudade, Suzy

Ana C. disse...

E eu acabei de ler o começo de um livro, nitidamente e um livro de autor Sul Americano...
Eu não digo que sou orfã de terra e de memórias assim?
Sou da capital e lá não há casas com portas e passagens para recordações.

José disse...

Ninguem que por lá viveu/ passou poderia descrever melhor......"memorialvemente" lindo,
Luv dad.

Melissinha disse...

Anacê, corei.
Hoje passei a manhã com a casa da Carlos Vasconcelos na cabeça, a chorar estupidamente cada vez que me vinha aqueles packs de recordações que incluem tudo,sabes? O som dos passarinhos, a voz das pessoas, o cheiro do detergente do chão, a temperatura da cozinha, a brisa da varanda.
É engraçado que a maioria das pessoas guarda esses packs com muito carinho no coração, mas a mim, a mais portuguesa das cearences, fazem-me sempre triste e nostálgica, porque o meu filho não vai conhecer os portões mágicos da minha terra. Diabo, nem o meu irmão conheceu.
("Ah, Melissa, mas vieram para a Europa e terão muito mais oportunidades." Tá bem, mas como tu disseste, cá não há disso. E formar memórias assim leva gerações.)

Tainá Nunes disse...

Tinham dois tapetes, um abaixo das cadeiras de visita e outro abaixo da mesa de jantar... Dividindo estes ambientes um corrimão de madeira sempre lustrado com "óleo de peroba". Lembra do pote de balas Soft? Não se podia chupa-las e conversar ao mesmo tempo. Isso podia matar (rsrsrsrs). Lembra o motivo pelo qual não podíamos passar pela sala? As marcas de pés no piso encerado!!!
A porta que dividia a sala mórbida (matrix) da sala real era linda! Toda de treliça... Ah, você não citou a saleta do telefone... Com suas poltronas confortáveis, um quadro do Tio Nandinho e outro meio surrealista que até hoje penso ser uma nave espacial... Um tacho de cobre com revistas (meu pai tem trauma deste). Esta saleta dava acesso para a garagem... Ai, ai... Tão vivo em nossas memórias.

Melissinha disse...

TE AMO, PRIMA.