segunda-feira, 26 de outubro de 2009

26 de Outubros

Há dois anos, neste dia, jogava o meu ramo de noiva ao mar, ali em São João, em frente ao Alcatruz, e fiquei olhando as ondas a desfazerem as rosas. Uma imagem bonita.
Há um ano, comprávamos o carrinho do bebé num lindo dia de sol em Lisboa, estávamos radiantes com o nosso filhinho.
Hoje foi o seu primeiro dia na creche, todo pimpão e crescido. Estou radiante também, porque, apesar de alguns probleminhas, a vida corre-me muito bem: amo muito e sou amada.

Há cinco anos, neste dia, a minha mãe pôs um ponto final em meses de sofrimento e faleceu tranquilamente, com a minha prima Sunny, que ela adorava, ao seu lado. Ao contrário do que se imagina, não foi um dia mau, mas sim, um dia de alívio e liberdade não só para ela, mas para todos nós, que estávamos sofrendo muito. Não foi um dia mau. Eu ainda estava atordoada, com gente que eu amava, sim, mas que não fazia parte do meu quotidiano e desesperada por colo de pai e namorado.
Mas não foi um dia mau.
Depois do funeral, toda a minha família foi almoçar junta a um restaurante. Eu tinha passado quase uma semana praticamente sem comer, como em suspenso. Nesse almoço, comi muito. Eu e a Sunny comemos muito, sem levantar a cabeça do prato. Quando reparámos nisso, desatámos a rir.
Não foi um dia mau.
O meu pai chegou à noite com o meu irmão. Passei uma semana em frenesim correndo de um lado para o outro a organizar a missa de 7º dia, que tinha de ser perfeita. Escolhi a igreja em que ela (e eu) tinha sido baptizada e tinha-se casado, decorei-a toda como se fosse um jardim, mandei fazer missais com uma foto dela em criança e escrevi, de próprio punho, a missa toda. Comprei plantas e todos os presentes levaram uma para casa com a instrução de a plantarem no jardim e cuidarem dela.
As plantas traziam um cartão que dizia: Para lembrar de Mel.

Uma prima minha disse na altura que as missas de 7º dia eram uma invenção divina, pois passávamos ali uma semana a organizar tudo e sem tempo para pensar em nada. Não podia concordar mais. Passei uma semana como uma autêntica organizadora de eventos, escolhendo canções, cores de rosas para o ofertório, etc.

Depois, no avião para casa... bateu.

Mas isso é outra história e não tem nada a ver com os 26 de Outubros da minha vida, que acabei por transformar, depois de um luto longo, num dia de rituais, de passagens várias.

26 de Outubro não será nunca um dia completamente banal, prometo-te.

13 comentários:

Ana C. disse...

Dos teus melhores textos. O 26 de Outubro inspira-te...

Bailarina disse...

Estou com a Ana, amei a tua descrição dos teus 26/10, hoje e amnhã e depois não serão dias maus!
Que prazer ler-te minha querida!
Beijos

Ginguba disse...

Não sei transmitir como que este texto me tocou.
Um abraço Melissa!

manue disse...

snif snif

Miguel disse...

Bom... se há datas marcantes na vida de alguém...
Tocante este teu texto Mel.

Mafalda disse...

este texto comoveu-me de uma maneira tão inesperada quanto desconcertante. beijinhos grande*

Célia disse...

Há dias marcantes na nossa vida sem dúvida. Nunca mais me esquecerei deste texto lindo, e claro do dia 26/10.
Gosto de te acompanhar, faz-me bem! Tenho pena de não conseguir escrever assim o que sinto, libertar a minha alma.
Beijos

sofia disse...

Este teu texto comoveu-me
Deixo-te um beijo grande

Melissinha disse...

Obrigada, meus queridos. É engraçado como tocamos o coração das pessoas nos momentos menos intencionais. Não fazia ideia de que tinha escrito isto em modo "comovente". :)

Ana. disse...

Fico ansiosa por ouvir o relato do próximo 26 de Outubro!
E acho lindo que tenhas transformado um dia que tinha tudo para ser triste, num dia de acontecimentos e alegrias!

Beijinho!
;)

Mãe da Tiz disse...

Minha querida, fiquei de láfrimas no olhos...

mil beijos***

lauro carvalho disse...

Sabe Bil, a cada dia descubro que minha ligação com a Mel, é algo além da irmandade...Não tem um dia na minha vida que não me lembre dela...Dias rio, dias choro, dias simplesmente lembro...Hoje chorei demais ao ver a foto dela aqui...

Bjs

Lauro

Melissinha disse...

Lauro... obrigada pela tua presença aqui.
É a tua imagem que me vem sempre à cabeça quando me lembro da missa.