domingo, 11 de outubro de 2009

Pequenas pontadas de dor

Há aquelas memoriazinhas dolorosas que insistem em fazer uma visita de vez em quando, um tipo de dor de dentes na alma.
Tenho uma delas extremamente íntima que está sempre a assombrar-me. Talvez escrevendo aqui, exorcise-a de vez ou, pelo menos, ganhe alguma perspectiva sobre ela.

Se me arrepender, apago. Mas espero que não me arrependa.

A minha relação com a minha mãe foi sempre difícil de definir - acho que grande parte delas o são. Poderia passar umas boas horas aqui a escrever sobre isso, sobre como éramos dependentes uma da outra mas sem nunca nos aceitarmos verdadeiramente. Era muito difícil cumprir os padrões dela, ainda por cima sendo mulheres tão diferentes - ela sempre muito pé no chão e preto no branco, eu sempre muito complicada e cheia de nuances(recuso um bocado a cena do "sensível").

Bem, mas não quero falar sobre a minha relação com a minha mãe, porque já falei tanto, tanto que até enjoa. Quero é deixar cá a pequena memória dolorosa.

Arrumando as malas para ir de férias para o Brasil, mamãe pediu fotos minhas e do meu irmão. Eu trouxe algumas. Ela começa a olhá-las, selecciona as do meu irmão e devolve-me as minhas. Nem preciso de perguntar nada, o olhar dela diz tudo.
"Quando emagreceres, mandamos algumas fotos para lá."

Eu tinha menos 30 quilos do que tenho hoje.

13 comentários:

Maria João disse...

Olá- Já sigo o teu blog há algum tempo porque gosto realmente de ler o que escreves. Parabéns pela tua família simpática e o teu filhote é realmente um fofo. Não vou comentar este post que escreveste, embora tenha sido ele que me fez escrever-te...mas não tenho confiança para tal. Espero que consigas resolver as coisas, ou, pelo menos, resolvas as coisas ctg própria pois nada é mais importante do que estarmos bem com nós mesmos.
Desculpa a invasão.

sofia disse...

Beijo grande...

Marina disse...

Acho que não há o medicamento perfeito para aliviar essas pontadas. É daqueles tipos de dor que uma pessoa tem de se habituar a viver com... Acho eu... :/ Beijo grande **

Melissinha disse...

Só um breve PS - eu não sou a coitadinha que teve uma mãe má, muito pelo contrário. Acho que lhe devo as minhas características preferidas: a capacidade de mudar quando é preciso, a coragem de virar a mesa, o saber viver bem com pouco. Não a trocaria por ninguém, será sempre a minha mulher preferida.

Mas pronto, tinha algumas arestas que ficaram por limar, e às vezes pico-me nelas. Não é grave nem eu fico suicida. Essas picadelas também fazem parte da dor e da delícia de ser quem eu sou.

Ginguba disse...

Gostei do post; percebi a pontada de dor...Mas adorei o P.S.!!
És mesmo uma delícia, Melissinha, adoro lêr-te!

Mafalda disse...

relação de mãe e filha tem sempre pontadas, mesmo quando o amor é grande. eu que o diga, que passei o fim-de-semana com a minha mãe e a picar-me nela.

Ana C. disse...

Mas há alguém que possa afirmar com toda a segurança que a mãe não foi responsável por alguns espinhos cravados de fininho nas nossas memórias?
Pois, também me parecia que não...
Depois há vários graus de espinhos, há os que só doem e há os que amolgam a segurança de uma pessoa irreversivelmente.
Mas o engraçado no crescimento é que começamos a ver as nossas mães como seres humanos e perdoar-lhes milhentos "pecados" que nos pareciam capitais ;)

Melissinha disse...

Acho que no fundo mães e filhas competem uma com a outra, por mais amigas que sejam.
Mas também acho que têm uma leitura dessa competição diferente de quem está de fora. A Anacê tem razão, nós crescemos, contextualizamos, entendemos.
Com sorte, seguimos em frente sem mágoa.

Bailarina disse...

O que eu ainda hoje me pico! beijo grande! adorei as fotos de baixo! adoro o teu puto!

Ana disse...

Olá!
Nunca aqui comentei nada porque sempre me pareceu um pouco intrusivo..aparecer não sei de onde e desatar a mandar bitaites..
Mas já vos leio há algum tempo e gosto muito da tua escrita.
Hoje vou comentar..pq me senti mal ao ler o teu post.
Consigo sentir a tua mágoa (tb a minha relação com a minha mãe tem alguns espinhos cravados).
Sem dúvida que vamos crescendo e aprendendo a contextualizar as suas atitudes, mas há coisas que nos marcam para sempre..
De certeza que o objectivo nunca foi magoar propositadamente, mas enfim..
São mesmo essas pequenas circunstâncias que nos tornaram no que somos hoje, para o melhor e para o pior..
Beijinho no coração! :)

Melissinha disse...

Olá, Ana, todas nós "aparecemos não sei de onde", por isso, puxa uma cadeira e fica à vontade!

Mãe é sempre um tema complicadíssimo. No meu caso mais complicado é, pois a minha já cá não está.
Já que não a posso confrontar - e duvido que o fizesse alguma vez - vou exorcizando assim, colocando cá para fora.
Confesso que até me sinto melhor, como se, publicando algo que me incomodava tanto, lhe dissesse de alguma maneira como me senti naquele momento.
E mais não escrevo, que se não depois não consigo mais parar.

We Are Not Typical - WANT disse...

é por estas e por outras que rspirei de alívio quando soube que era um rapaz que vinha a caminho. Depois deste espero estar preparada para receber, de braços abertos, uma filha e não ter medo de reproduzir os padrões de comportamento que conheci da minha mãe. Talvez tenhas pensado o mesmo quando engravidaste?
beijo grande

Melissinha disse...

Sempre quis um menino desde o começo, mas nunca parei para pensar nas razões.
E quero que o meu próximo filho, existindo, também seja rapaz.
Haha será que freud explica?