terça-feira, 31 de julho de 2012

Crónicas do Encolhimento - constatando

Pode haver um momento na vida em que, obcecadas com o peso, passamos a definir o nosso valor por ele. Não é nada muito objetivo, nada muito elaborado - daí o perigo. É uma noção que se vai instalando, silenciosa e maligna. E aí encontramos amigos que não víamos desde que éramos "magras", coisa de dez, quinze anos, e apressamo-nos a explicar o porquê de estarmos gordas antes de perguntar como eles estão. Podemos evitar a todo custo encontros com quem ainda não nos viu neste peso, gente do passado que já nos foi muito querida. Pode haver um momento em que estamos sempre a explicar porque estamos a comer o que estamos a comer, seja o que for, para quem quer que seja. Podemos ver-nos como a Gorda, a indulgente que se deixou chegar até aquele ponto sabe lá Deus porquê, mas, se ela permitiu que isso lhe acontecesse é porque não merece amor, mesmo.

E aí pode haver um dia em que decidimos emagrecer, e a coisa corre bem, e vamos ter a vida com que sonhámos há anos, boosts de autoestima e amor do próximo. Quem está perto sabe o que aquilo significa para nós e comemora junto, ficam felizes pela nossa conquista.

Mas o que me intriga não são esses que estão por perto. Intriga-me os que estão um pouco mais distantes. Porque eu, com o acorrentamento da noção de valor próprio ao peso já em estado avançado, achava que, para onde eu fosse, fogos de artifício me seguiriam e todos diriam uau, uau, uau. Mas não, não é assim. Pessoas um pouco mais distantes - amigos ainda, família - olham para mim e dizem: estás mais magra. E eu, a tentar dissimular a grandiosidade daquilo, murmuro um falso modesto sim, quase vinte quilos. E eles: nota-se. E pronto, muda-se a conversa para algo mais interessante, deixando-me ali com os fogos por atirar.

E ontem bateu.
Eles não viam o peso. Eles já gostavam de mim, caramba. Queriam lá saber da porra do peso.

* E sobre isto, a bela Joaníssima escreveu um post fabuloso há uns tempos, o melhor de sempre. Pena que eu estava demasiada cega pela banha para entender aquilo. Ei-lo.

10 comentários:

gralha disse...

Eu não vejo o peso das pessoas de quem gosto, não sei se isso é bom, se é mau, ou se é assim, simplesmente.
Já a questão do justificar o que se come, do alto (baixo) do meu peso também sinto todos os olhares sobre mim quando me agarro a um palmier recheado. A minha vozinha libertária diz que isso é disparate mas como o bolo um bocadinho mais depressa do que seria necessário.

Naná disse...

O pior é quando vais comer algo, ninguém está a ver mas estás a dar justificações mentais sobre todas as razões e mais algumas que te levam a comer aquilo, contrariando o bom senso...
quando se começam a ouvir as vozes e a ver os olhares de reprovação mesmo sem que eles lá estejam é quando tudo se estraga.

Melissinha disse...

Eu acho que é simplesmente assim. Nós é que achamos que o mundo partilha da nossa neura à mesma medida. Ou sou eu que acho :)

É muito difícil deixar que a comida assuma um papel natural na nossa vida, sem ser uma coisa cheia de excessos - ou de pecado, ou de prazer, ou de seja o que for. Porque é que um palmier recheado não pode ser simplesmente o diabo dum palmier recheado?

Melissinha disse...

As vozes e os olhares de reprovação normalmente são os nossos. Isso é que é a doideira da coisa da comida.

gralha disse...

Pequena explicação do palmier-problemático: eu padeço da culpa (estúpida) de comer o palmier e mesmo assim ser uma cabra magra. É que às vezes até vejo faíscas de inveja a sair de certos olhos.

Naná disse...

gralha, oh para os meus olhos a debitar faíscas de inveja pura :)

gralha disse...

Naná: :P

Melissinha disse...

Pá, o que posso dizer é que não conheço magras compulsivas :) A genética ajuda, mas é muito mais uma questão de comportamento, mesmo.

Eu não odeio magras a comer. Mas confesso que olho torto para gordas a comer. Feio, né? Pois é. Há-de mudar.

Té F. disse...

Melissa eu sou mais como a Gralha às 09:51 :) não ligo nada a isso...não vejo o peso das pessoas de quem gosto!
Mas porquê que o palmier - vou mais para o pastel de nata - tem de ser visto como o diabo? Desde que seja só um, vá lá dois, e de vez em quando, sabe mesmo bem.
Bj

ouvirdizer disse...

A Gralha conhece-me de sempre e sabe que estou mais magra; com a Melissinha já fomos falando sobre o assunto.
Eu senti necessidade de emagrecer porque engordei muito com as 3 gravidezes em 4 anos. Além do mais sempre tive peso a mais e nunca fui muito feliz com o assunto, até que decidi fazer alguma coisa pelo tema (e por mim).
Agora, ainda com (pouco) peso a mais, sem dietas loucas mas com mais cuidados, o certo é que me sinto mais feliz. Porque derrubei uma barreira.
Sim, gosto de elogios mas gosto mesmo é de me sentir bem.
Gralha: a tua culpa deve-se aos anos em que faziamos refeições juntas. Eu engordava e tu não. Vá, não tenhas culpas, tu não tinhas culpa. Já passou, come lá o palmier. ahahahaha!
Por fim, a saber: uma vez por semana permito-me um mil-folhas, que é coisa que me tira do sério. Um dia a senhora do café disse: "Veja lá, olhe que engorda outra vez...". E eu emagreci... de tão pequenina e envergonhada que me senti.
Continuo a comprar lá o MEU mil-folhas, só para ela ver que não volto a engordar. Isto é estranho, não é?!!
Por fim, e ainda sobre as pessoas: é claro que quem gosta de nós, gosta muito pelo que somos. Ainda assim, quando emagreci, enviei um postal ao meu marido a agradecer não ter desistido, ahahahahah! Fora de brincadeiras, ele já casou comigo gorda, agora veio a surpresa! Já a minha mãe passa a vida a dizer que devo ter anemia... ahahahahah!
Isto é uma cena daquelas... mas no final só temos que nos sentir bem connosco!