sexta-feira, 17 de maio de 2013

O meu pai já me tinha falado nisso, mas era coisa que eu desconhecia, demasiado abstrato e artificial para a minha cabeça e o meu coração: a paz que sentia de vez em quando ao passar por lugares da minha mãe, ou da vida deles. Uma paz gigantesca. E ele diz-me, quando tem esses momentos: ela só pode estar muito bem, filha.

Merdas de frases feitas, odeio. Não vale a pena, o meu peito é rasgado.

Mas hoje fomos lá jantar ao sítio do último jantar de gajas. Faltava a dona Gralha, mas gralhámos por ela, e gralhámos imenso. Tenho a impressão de que se gralhou a noite inteira. Dona Moça Bonita estava linda, nada de lenço na cabeça, a chamar a atenção dos rapazes da mesa ao lado. E é livro da Casaca para lá, Oscarizável para cá, mães e pais, homens, filhos tidos e não tidos. Comida boa, gargalhadas. Um sentido grande de que tudo estava certinho quando o grande elefante branco da doença não vinha à baila. Quando vinha, falávamos do elefante branco, eu a Casaca a seguir a batuta da coragem dela.

Caraças, que gaja do caraças. A sério.

Hoje lá fui com o Hugo e o Gabriel, sentámo-nos na mesma mesa. Sentei-me no mesmo lugar, o Hugo sentou-se no lugar da Casaca. O lugar da Moça Bonita permaneceu vago. Pendurei lá a mala.

E foi quando a coisa veio. A coisa que o meu pai chama paz.
Cliché dos clichés, fui invadida por uma paz yogi, paz de meditação. Paz de atenção plena. Que paz boa, aquela. Olhava para o lugar ao lado e sentia-a bem. Senti-a como a sentia quando ela andava por cá a falar de mil e uma coisas. Como respirar fundo, como silêncio, mas não aquele silêncio angustiado e sofredor, mas o silêncio de quem se conhece e não precisa de fazer conversa fiada. Senti-a como um silêncio sorridente.

Ela só pode estar muito bem, Casaca.

3 comentários:

Susana Neves disse...

como te percebo. Só estive com ela uma vez, em Aveiro, e sinto-a nos locais por onde passámos.Que saudades

Ana C. disse...

gostei muito deste texto, Melissa. Quando fui ao mesmo restaurante, passados uns dias de ela ter partido, a única coisa que senti foi uma tristeza imensa e saudades. Conseguia sentir-nos ali, às três, com uma nitidez impressionante. Os 3 gajos da mesa do lado a lançarem piropos e a doença a ser esquecida e a ser lembrada, sem vergonhas, nem pudor.
Talvez um dia regresse lá e sinta esse conforto que sentiste.

Julieta disse...

Já senti essa paz relativamente à minha avó... mas nunca tinha pensado nisso.