sexta-feira, 10 de maio de 2013

O péssimo timing da tia Antonieta


O luto tinha regras muito claras. Um ano caso fosse pai ou mãe, seis meses se fosse um avô ou irmão. Nunca, nunca, nunca menos de dois meses, mesmo que fosse uma tia lá dos confins de Caucaia que só viam no Natal.

E, claro, a tia Antonieta resolveu morrer coisa de dois meses antes das festas juninas.

A filha mais velha já andava a namorar, já não ligava a festas, mas ela e a irmã do meio puseram-se em contas e mais contas. Não podiam, NÃO PODIAM estar de luto na festa de São João. Já andavam a ensaiar para a quadrilha, tinham exatamente os pares que queriam ter.

Mas, tão certo quanto a goiabeira dar goiabas a tempo de serem presentes de dia dos professores, o São João chegou antes do fim do nojo. E a mãe até foi generosa. Elas podiam ir dançar a quadrilha. Mas aliviar o luto, isso é que não. Resignadas, as irmãs escolheram a opção menos pior.

E era ver dois pontos pretos no meio daquele colorido todo.
Também não podiam sorrir na foto do grupo.
Os pares não se importaram muito.

Não é só a bela Gralha que precisa de auxiliares de memória. Tenho de escoar as memórias da dona Melânia antes que sejam suplantadas pelas da minha própria vida. Receio bem que tenha de ser aqui.


5 comentários:

gralha disse...

Mais, por favor, mais. Estou a segurar a cara com ambas as mão, de cotovelos sobre a mesa, à espera de mais desses vossos auxiliares.

Ana. disse...

Eu adoro as vossas memórias!
Não tenho o vosso jeito para as contar assim...
;)

Naná disse...

Não deixes de usar estes auxiliares :)

Melissinha disse...

Gentis, sempre, vocês.

Dona Melânia tem um repertório incrível de peripécias infantis e adolescentes. Vou tentar fazer aqui a minha colcha de retalhos, então.

Cátia Maciel disse...

Continua, quero mais. Parecia que estava a ler, outra vez, o mulheres que correm com lobos, na parte em que a clarissa descreve as tias russas., vestidas de preto, no casamento, a dançar.