quinta-feira, 2 de maio de 2013

Vêm em ondas cada vez mais espaçadas

Mas, por serem mais espaçadas, fico menos habituada a elas.
Crises de saudades da minha mãe, quero dizer.

"Saudade" não será o termo, porque a minha vida mudou tanto desde que a perdi que, sinceramente, não sei qual seria o papel dela hoje. Acho que a palavra é mais "revolta". Revolta por não ter mãe. Revolta por ser tão confuso explicar ao Gabriel que há uma avó que vive no céu: vêm sempre milhentas perguntas horrorosas logo a seguir, com respostas muito pouco satisfatórias - para ele e para mim.

Por que diabo vive ela no céu, e não aqui ao pé de nós, da Xéu, do Vô, do Nando, da vó Urdes? Tá em África? No Bajil? Onde DIABO está a vó Mel?  Não faço puto ideia, filho, não faço a mais pálida das ideias.

É revoltante e faz-me chorar para dentro, tudo para dentro, tudo cada vez mais para dentro.

E não me digam para descrever um jardim com passarinhos por onde a vó Mel saltita ao meu filho, que é coisa que nunca farei. 

6 comentários:

Naná disse...

É mesmo complicado essas explicações... e se por um lado não queremos deixá-los sem resposta, também não queremos certamente vender-lhe uma história embelezada... mas custa encontrar uma explicação razoável sem dourar a pílula e sem os assustar...

Se nós soubessemos onde encontrar as nossas mães, certamente já teríamos ido lá abraçá-la, beijá-la e matar toda a saudade que carregamos no peito.

Não sinto revolta. Sinto uma tristeza enorme... ainda ontem fomos à casa de campo a que chamamos a "casa dos avós" (apesar de ser minha agora, será sempre a casa dos avós) e o meu filho perguntou: e onde estão os avós?

triss disse...

Suponho que a verdade (o "não sei")será sempre melhor do que uma mentira :-/

Melissinha disse...

Isto pode dar a impressão de que tenho sempre este estado adolescente sobre a morte da minha mãe, mas não. No dia a dia, é algo perfeitamente incorporado.
Mas aí algumas vezes por ano - algumas datas cliché como Natal e dia da mãe -, ou quando estou com picos de ansiedade... A coisa-sem-nome bate.

Não há descrição para a coisa-sem-nome que é ter a certeza de que aquela pessoa não volta. Não há, mesmo.

gralha disse...

Mas não há nem um bocadinho pequenino de ti que acredita que podem reencontrar-se um dia?

Melissinha disse...

Até há, Gralha, mas depois racionalizo e deixa de fazer sentido. Até porque, depois de tantos anos e tanta vida, como seria? Não consigo ter capacidade de abstração suficiente para não pensar nos pormenores do reencontro, então prefiro não pensar.

Gosto mais do pensamento espírita (e budista, acho eu), em que nos vamos encontrando em várias manifestações diferentes ao longo da eternidade, resolvendo um puzzle cármico qualquer.

Mas nem uma coisa nem outra me consolam, de qualquer forma.

gralha disse...

Sabes que nunca parei muito para pensar em como serão estes reencontros. Mas tenho esperança que seja uma reaproximação do fundamental, daquela luzinha que há em nós que nos torna únicos. O brilho nos olhos do meu Avô, igual ao meu e ao dos meus filhos, sabes? Acredito mesmo que isso iremos reencontrar.