domingo, 11 de abril de 2010

Tradições predatórias

Acho inqualificável fazer uma festa de casamento ou baptizado ou seja do que for a contar com o suor dos convidados. Acho inqualificável a noção tácita de que se tem de dar um cheque chorudo que cubra, no mínimo, as despesas da festa, quando isso pode chegar às centenas de euros por família. Esse tipo de carga transforma um momento que seria bom numa verdadeira dor de cabeça para os convidados (e pior, muito pior, para padrinhos), que, não sendo de famílias abonadas, e quase ninguém é, tem de cancelar férias e tratamentos dentários e obras em casa para subsidiar sonhos principescos de outras pessoas, por mais chegadas que sejam.

Acho imoral, pecaminoso, inqualificável. Não me lembro de uma única pessoa a fazer uma cara feliz ao receber um convite assim. É um peso gigantesco. E não me interessa a recíproca. Para mim, é uma tradição predatória, como a caça recreativa e as touradas, e, como ambas, tem de CESSAR de EXISTIR.

A coisa está tão enraizada, que no meu casamento, mesmo tendo dito que não era preciso prendas em dinheiro, que já tínhamos tudo e tínhamos feito a festa à medida do nosso bolso e não do bolso de outrem, choveram cheques, a maioria de pessoas que sabíamos ter dificuldades ou sabíamos ter a mesma opinião do que nós em relação a festas predatórias.

Tinha dito há uns tempos que a morte tinha tomado o lugar do sexo como tabu derradeiro, mas não: o dinheiro é que sim. Não ter dinheiro é que é o derradeiro tabu, a derradeira vergonha, aquilo de quem ninguém fala abertamente.

17 comentários:

Miguel disse...

EHHH LÁÁÁ!! Isso é inspiração domingueira?? Sim, verdadinha o que dizes e também nós tínhamos "cachet" mais que suficiente para o casório e, com as oferendas tivemos lucro! Ainda bem! Mas o que me revolta mesmo são aqueles casais que organizam a lista de convidados com base naquilo que esperem receber deles...

Ana C. disse...

O Hugo já foi convidado várias vezes para ser padrinho dos sobrinhos e ouve sempre a boca: Só vais dar isso? És padrinho, é muito pobre.
Porque é que ele não deixa de dar à Alice para cobrir os afilhados de medalhinhas de ouro e vestes bordadas a fios de seda? Isto sim seria a verdadeira moral cristã em acção.
É que não é só no baptizado, depois tens os aniversários, o Natal...
ODEIO ESTA MERDA DE MENTALIDADE, Esta gente nem devia baptizar os putos. São estas contradições dos ditos católicos que me metem nojo e me fazem gostar cada vez mais do budismo.

Joanissima disse...

Nós cá em casa (e dado que é a nossa segunda vez há que aprender com os erros do passado) tivemos como conceito convidar as pessoas que nos são fundamentais. Daí ir apenas gente com a qual nos identificamos profundamente e não aquelas que teríamos, supostamente, obrigação de convidar. (chega de obrigações, é uma festa, não uma convenção!!).
Por isso, se alguma coisa correr menos, bem, é muito o "quero lá saber" porque estamos "em casa".
Os padrinhos foram convidados pela relação que temos e fomos avisando que queremos, de presente, uma dança com a noiva (acho que o padrinho preferia pagar um cheque... ahahaha), o levar-nos de carro para a igreja e, no que diz repeito á mimnha madrinha, a obrigação de ir comigo às provas do vestidpo e não me deixar cometer muitas loucuras.

Conheço gente que foi madrinha, que na altura não podia dar presentes gordos e que, ainda hoje, anos depois, os noivos cobram (ainda que supostamente na brincadeira) isso. Triste.

Dos convidados, faço questao que todos particpem um bocadinho: ou na escolha das musicas, ou na impressão dos convites, enfim, que trabalhem para pagar o jantar!!! ahahahahah


Concordo contigo que quando se é convidada para este tipo de festas, mais do que a alegria do convite, é o peso do presente que terá que se dar. Isso estraga tudo.

Joanissima disse...

(chiça!! desculpa lá o testamento!!)

Melissinha disse...

TUDO se resume a dinheiro nessa indústria.
Fartei-me, não compactuo mais.

Melissinha disse...

Joana, dos meus padrinhos ganhei um conjunto para servir sobremesas e um livro de honra - feio à brava, hehe - feito pelo meu mano.
Os padrinhos do Hugo fizeram questão de fazer a coisa by the book e compraram-lhe a roupa, mas o Hugo não casou de fraque, casou de calças de ganga e all-star.

Ginguba disse...

Glup!
Melissa, este teu post deixou-me com engulhos, porque eu consigo ser mais radical que isso. Não aceito ser madrinha de ninguém e só dou prendas que posso pagar. Aliás isso já me trouxe muitos problemas com muita gente e acho mesmo que sou a ovelha ranhosa da família, mas quero lá saber. Se a festa fôr desse género eu simplesmente não vou. Enfim, este assunto é-me um bocado descofortável e para não fazer um testamento vou ficar por aqui.
Bom Domingo

Melissinha disse...

Ginguba, este é o lugar para desabafar! Força!

Joanissima disse...

O livro de honra vai ser o caderninho que a JS está a fazer para nós!!! (acho que ainda não lhe disse que é para isso mas é!! : ))))

Ginguba disse...

Não odeias a tradição de os afilhados irem levar o ramo aos padrinhos? E depois irem receber o "folar"? METE-ME NOJO!!

Precis Almana disse...

Eu não compactuo como isso. E não compactuar não é deixar de ir às festas - o que algumas pessoas chegam a fazer. É ir às festas e oferecer na medida do que se pode. Sempre o fiz e sempre o farei, sem qualquer tipo de problemas.
Quanto à Páscoa e a ser madrinha, quando aceitei ser dos mais recentes afilhados eu era - e sou - uma pé rapada, por isso nunca precisei de me justificar. Lembro-me, agora, que nem telefonei para um dos afilhados, quanto mais dar-lhe prendas. Mas isso tem outras justificações, além de eu ser agnóstica (informação que a mãe da criança sabe) e por isso não sei sequer o que a Páscoa tem a ver com padrinhos e afilhados.
Aplaudo este post, Melissinha.

Aline disse...

Concordo contigo. Muitas vezes, receber um convite de casamento ou de baptizado, é como receber um balde de água fria. E não devia ser assim.

Pekala disse...

Não podia concordar mais contigo,aliás,ninguém próximo de mim me convida pra madrinha de nada porque eu devo ser das poucas pessoas que se queixa constantemente a quem quiser ouvir que está tesa que nem um carapau e faz-me impressão o resto da malta abster-se de comentários desses.Não que ande por aí a fazer-me de vítima só não suporto aquele fingimento de quee stá tudo bem,que estamos óptimos como se fosse super importante mostrar ao mundo que não temos problemas financeiros porque a realidade é que a esmagadora maioria tem sim!!!
Sou madrinha de casamento de um amigo meu juntamente com o Carlos e quando ele nos convidou já sabi perfeitamente que não ia receber nada nem tão pouco estava à espera.Como bons padrinhos espetámos-lhe uma bebedeira na despedida de solteiro,amparámo-lo na ressaca,acompanhámos o gajo à igreja e no final,lata das latas,vinha o padre com um envelopezinho na nossa direcção para contribuirmos com algo para a cerimónia.O que ele não sabia é que já íamos preparados com os nossos próprios envelopezinhos,cada um com uma nota de 5 euros lá dentro.Ai o que eu gostava de ter lá estado quando ele abriu aquilo AHAHAHAHAHAH
Cambada de hipócritas bah.
Não há,não se gasta,parece-me simples.

gralha disse...

É verdade, o dinheiro é mesmo um grande tabu, sobretudo para quem dele tem mais necessidade, o que é duplamente injusto. Ai de quem se queixasse de um presente meu, levava logo uma resposta torta. Dou o que posso, de coração, se possível uma coisa personalizada e feita por mim.

Marina disse...

É verdade. E olha que até há quem peça empréstimo para casar.. Nós também optámos por um casamento à medida do nosso bolso e não a contar com o que nos poderiam dar os convidados. Foi uma coisa simples, nada de quintas que cobram mais de 100 euros por convidado. Optámos por uma coisa mais económica, até porque foram os nossos pais a pagar a boda, e eles já nos estavam a ajudar com a construção da nossa casa. Mas fizémos a coisa de acordo com as nossas possibilidades e não a contar com o ovo no cu da galinha, como se costuma dizer. Acho isso muito errado, porque há pessoas que não podem dar certas quantias e com muito esforço lá dão, para não ficarem mal vistas, é horrível. Beijo

Bailarina disse...

a mim enerva-me para carago! e estou à vontade para falar, pois nem te digo quantos afilhados tenho...mas nenhum conta com os meus euros nem eu contei com os euros dos pedrinhos do raul para nada! vestimos o puto com os nossos euros e dissemos logo que fios e pulseiras em ouro NÂO!!! fizemos uma festa grande pois fizemos, mas porque a familia é grande e importante para nós e porque juntámos festas até mais não!ehehe!

I. disse...

Palmas de pé.
E mainada.

(casei há meses, não fozémos festa, sequer, foi uma opção própria. para mim foi o segundo, mas nem no primeiro andei a contar quem dava e o que dava. aliás, tinha lista de casamento, com preços para todas as bolsas. o importante é que as pessoas vão, certo?)