quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Bebegugrafia - 1

Durante a minha gravidez e ainda um bom tempo depois, o Hugo teve um babyblog que eu adorava. Era a cara dele, ternurento e meio esquisito como ele. O blog foi engolido pelo blogger, mas ainda tenho cá alguns textos, que vou publicando aqui para que não se percam, sem ordem cronológica.

Podes pensar que nada te afecta quando levas com a seta do cupido no raio do peito mas a verdade, se a queres ler, é que as relações amorosas passado algum tempo caem numa toada mais lenta e a culpa nem sempre é de alguém. Por isso, aquele fragmento inicial arrebatador, provocante, vigoroso cheio de fulgor e de momentos intensos como uma chávena de café moído na altura, acaba por definhar e é bom que tenhas isso em consideração quando chegar altura de escolheres a tua parceira ou parceiro. Mesmo que a tua paixão seja correspondida por uma Cláudia Shiffer ou um George Clooney, acredita no que te digo, mais cedo ou mais tarde vais perceber que até com sex symbols os tempos de rodopio emocional expiram como a garantia dum electrodoméstico. Repara, não quer dizer que o electrodoméstico em si não funcione, pode até nunca se estragar, a grande chatice é que se não tens garantia válida não o podes devolver e, por isso, vais passar por um mau bocado.

O teu pai e a tua mãe já estão juntos há 8 anos (espero mesmo que sejam oito senão durmo na sala). Estamos bem, não te apoquentes, e apreciamos muito a companhia um do outro. Claro que há coisas que mudaram. As nossas conversas já não duram horas e horas como nos primeiros encontros e há dias em que embirramos porque um prato não foi limpo (ela) ou uma passa dum cigarro não foi baforada totalmente janela fora (eu). Mas as coisas nunca atingem proporções desmedidas e sabemos sempre compreender a verdadeira dimensão delas. Normalmente resolvemos os assuntos com uma boa dose de piadas. Os teus pais gozam muito um com o outro embora, desde que nasceste, essa tendência se esvaecesse. Compreende que é mais apetecível e mentalmente desafiador gozarmos contigo e com o teu aparvalhado estilo de vida! Apesar deste ambiente saudável que fará de ti, assim o espero, uma criança especial, certas particularidades desmoronaram-se. A que sinto mais falta, mas que por outro lado é a mais fácil de recuperar, é o acto de oferecer. Claro que nos continuamos a presentear e não deixamos passar incólumes as datas especiais como o dia do casamento ou os nossos aniversários, no entanto, o princípio da oferta tornou-se rotineiro e insalubre. Um perfume, um livro ou uma camisola é sempre a nossa melhor solução de recurso para não ficarmos em branco. Já chegamos ao ponto de perguntar um ao outro o que se quer receber pelo Natal. Nada pode ser mais humilhante se analisarmos a circunstância friamente. Em tempos primordiais uma prenda tinha um significado especial porque tendia a ser batalhada. Era escolhida com base na leitura do outro e perspicaz na forma como surgia. A primeira que ofereci compôs-se numa conversa ocasional em que a Melissa me contou as histórias de infância dela. Eram bastante políticas porque o Brasil na altura vivia em ditadura e a mensagem da liberdade espalhava-se pelas canções das histórias infantis. As cantigas surgiram do génio do Chico Buarque e os censores não conseguiam alcançar a subtileza das letras. Procurei feito doido por todo o lado e lá encontrei o CD. Se não fosse o sentido de oportunidade de um verdadeiro apaixonado ela provavelmente nunca teria voltado a escutar aqueles pedaços de memória da sua terra, mas assim, graças à astúcia do teu pai, relembrou a saudade da pátria. Julgo que a conquistei no instante em que carregou no Play do Discman Sony MegaBass. Foi apoteótico porque lembro-te que não havia ainda YouTube nem mp3’s sacados na net.

Percebes agora aonde quero chegar?

O teu nascimento trouxe consigo novamente essa efervescência. Claro que entre mim e a tua mãe continuamos com as oferendas em piloto automático, mas para ti o caso muda de figura e parecemos novamente dois apaixonados. A minha primeira acção nesse sentido foi um Body impresso com uma clara alusão ao teu compositor preferido, uma moda muito em voga no início dos anos 90, especialmente com grupos de Heavy Metal. Toda a gente diz que os bebés da tua idade ficam mais calmos quando ouvem música clássica. Aproveitando o filão, existem milhares de colectânea à venda de música erudita para recém-nascidos e pasma-te, todos a ouvem. Tu não és excepção e partilhas e estás sempre a ouvir Bach. No outro dia até choraste quando o CD acabou. Por isso andei na internet à procura duma imagem para estampar. Comprei o Body e passei a hora do almoço a compor minuciosamente o produto final para que ficasse um estoiro nesse teu tronco minúsculo e sem penugem. Não ligaste nenhuma, não esperava outra coisa de alguém que está sempre de trombas, mas foi sensacional andar uma sexta-feira todo ansioso por aparecer com aquilo em casa e ver a reacção da tua mãe ao meu trabalho.

Foi mesmo espantoso voltar a sentir a dimensão épica da lembrança e ainda melhor foi ver-te ao lado dos outros bebés cheios de ursinhos e pinguins que passeavam dentro dos ovos pelo paredão.

Estavas mesmo com um ar fixe.


25/03/09

9 comentários:

Irina A. disse...

Estou a ficar uma sentimentaloides, agora choro a ler posts e tudo, não todos é certo, mas porra, o Hugo ainda contribui para que este seja o meu blog de eleição.
Vocês são do caneco, grande dupla :)

Sofia disse...

Eu matava o blogger por ter feito sumir esses textos (partindo do princípio q têm esta qualidade).
Bjs

Melissinha disse...

:)

Obrigada, moças.
O Hugo já deve aparecer por aí.

Eu acho que não foi ele que apagou, acho que aquilo foi mesmo engolido.

Naná disse...

O amor de pai decalcado em lindas palavras!

Esta história das prendas em piloto automático está tão bem descrita... é mesmo assim!

O Gabriel é um sortudo mesmo! E tu também ;)

Ana C. disse...

E um post que ele fez quando soube que ia ser rapaz? Lembro-me tão bem...

Ana C. disse...

Mas relendo, este post está fenomenal.

Melissinha disse...

Vou publicando cá :)

Gosto muito de todos, dos mais melosos aos mais estranhos e nostálgicos.
O meu preferido é o da lata de leite.

Melissinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
sofia disse...

:)
Anda partilha, que o texto está lindo!