quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sobre o meu 25 de Abril

Ele às vezes dorme cá em casa e, no dia seguinte, faço-lhe um cabaz com sobras do jantar, pacotes de bolacha, fruta e o que mais encontrar. A primeira vez que fiz isto, pensei: irra. Transformei-me na minha sogra. Mas não faz mal, porque é o que a minha sogra tem de mais bonito.

E lá vai ele embora, carregadíssimo de instrumentos musicais e mochilas e o meu cabaz, comigo a berrar-lhe porque ele devia ter tomado duche e ele a berrar-me porque prefere tomar duche em casa. E lá vai ele, e ficamos todos com um pouquinho de saudades, porque é um puto mesmo muito fixe.

O meu irmão levou porrada da polícia na última manifestação. O que fazia ele? Tocava tambor. E lutava por um mundo melhor, porque ele acredita que somos capazes disso. Passou um mês acampado no Rossio, a discutir ideias e alimentar quem precisasse. Eu perguntava-lhe o porquê, e ele dizia-me: pelo teu filho.

Hoje, faça chuva ou faça sol, o meu irmão vai estar com o seu tambor a protestar por melhores condições de vida. Eu não vou, fiquei com medo da polícia. Não vou nunca mais. Tenho o coração na mão pelo que pode acontecer, e vou tentar distrair-me ao longo do dia. E ficar à espera do telefonema dele a dizer que correu tudo bem.

E será assim o meu 25 de Abril, pouco diferente de outras tardes de outras mães e irmãs de outros tempos aos quais não devíamos voltar nunca.

E é isto.

6 comentários:

Ana. disse...

E eu só tenho pena que não sejamos todos como o teu irmão. Ele sim, está a tentar fazer alguma coisa!
Um beijo de admiração para ele, tá?

Ana C. disse...

O teu irmão é O personagem :)

Melissinha disse...

é, sim :) Quer mudar o mundo.

Correu bem, desta vez. Venha a próxima.

Melissinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Melissinha disse...

Em tempo, caso não tenha ficado óbvio (acho que ficou): morro de orgulho do idealismo dele. Quero que seja um sonhador para o resto da vida. Quero que lute por tudo que acha que ele e todo mundo merece. Desta boca, nunca vai ouvir dizer que manifestar-se é inútil.

Só rezo para que se mantenha longe da polícia.

E isto podia ter sido escrito em 73, mas não foi.

MARIA MARIQUITAS disse...

Eu gosto mesmo do teu irmão!