quarta-feira, 9 de maio de 2012

Let your kids paint on the walls*


Que stresse era a plasticina quando eu era criança. Mamãe era muito pouco adepta do multiculturalismo moldável, e as cores tinham de estar sempre separadíssimas. Lembro-me de algumas primas ainda mais plasticino-neuróticas do que a minha mãe, que raspavam qualquer vestígio de cor estrangeira das bolinhas de massa. Usavam faquinhas de plástico para fazer caminhas, armários, mesas. O que mais gostávamos de esculpir eram casas como as do dogville, com as divisórias separadas por longas tiras de plasticina monocor.

(As casas das minhas primas tinham pequenos travesseirinhos cortados à faca de plástico em cima das caminhas cortadas à faca de plástico. As minhas casas tinham bolinhas a fazer de cama, fogão, cadeira).

Digo isto porque comprámos um balde cheio de pequenos baldinhos de plasticina ao Gabriel e, mal virámos as costas, os pequenos baldinhos viraram uma grande bola fundida, o "bolo". Tomei um susto e fiquei existencialista por um segundo. Disse-lhe um insípido "Gabriel, não mistures as plasticinas..." e acordei. Não misturar por que raio? Ele tem uma belíssima bola colorida para fazer bolos, uvas e pizas (o meu filho é mais cozinheiro do que arquiteto) e não parece importar-se nadinha. E foi daqueles momentos - preparar para frase romântica - em que dei o valor à mistureba que o meu coração deu, e não o que fui levada a acreditar no passado: caguei no assunto. E este é um grande desafio da maternidade, questionarmos as nossas teorias, revermos o que tínhamos como verdades absolutas, construirmos a nossa cena. E não separar plasticina é algo que compreendo - a plasticina sintética era quase um luxo, na época -, mas que não é importante para nós. Pode ir para junto de outras coisas que já foram, como forçá-lo a aprender coisas de que claramente não precisa ou não está pronto, a controlar a excitação quando está muito feliz e outras coisas consideradas imprescindíveis na "educação" de muita criancinha que por aí anda.

Tem corrido bem, tanto o faz-de-conta com a bola de plasticina como o resto. Corre sempre bem quando lhes transmitimos o que é verdadeiro e valioso para nós, acho eu (partindo do princípio que não somos bestas castradoras, obviamente).
óia o ião de bigódis!

* Randy Paush, aquele professor que morreu de cancro no pâncreas e começou a preparar a sua partida com antecedência, em resposta à uma pergunta da Oprah: qual é o maior conselho que deixa às pessoas? Se só pudesse dizer uma coisa? 
 

9 comentários:

Naná disse...

Eu ainda sou uma besta castradora com as plasticinas... ofereceram um conjunto ao meu filho e ele quis comê-las... por isso guardei-as para depois, quando ele perceber que aquilo é para brincar e não para comer... mas com os lápis de cera e as figuras de colorir, deixo-o fazer como entende...

Melissinha disse...

Eu também lá devo ser besta castradora numa coisa ou noutra. O importante é não ser uma besta castradora em muita coisa, julgo eu - digo eu!

Té F. disse...

Melissa isso deve ser um defeito (ou feitio) de mães ;)
Tb eu sou adepta (é pá aqui cai o "p" ou não!? ainda não consigo escrever adeta) da plasticina separada por cores!!!
Mas let it be...o que interessa é o imaginário das crianças e nem tanto as cores. Se querem ter uma bola enorme cinzenta ao invés de várias bolinhas (azul, branca, verde...) pois que tenham e que se divirtam a brincar com a plasticina. Brincar é o mais importante!

Ana C. disse...

Eu nunca brinquei com plasticina em casa. Nunca. Provavelmente pelo terror de cagar a casa que a minha mãe sempre teve.
Com a Alice, enfio-lhe uma toalha em cima da mesa de jantar e ela que cague tudo a seu belo prazer. Nem me tinha ocorrido que havia um problema em misturar tudo :)

Ginguba disse...

Nunca me preocupei se as plasticinas se misturavam ou não, no entanto pintura nas paredes (actividade a que a minha filha se dedicava com afinco) confesso que me deixava nervosinha. Enfim, com alguns assuntos fui um bocadinho castradora sim!

Ana C. disse...

Atenção, aqui em casa ninguém tem autorização para pintar fora das folhas e quadros para o efeito. Era o que mais me faltava. No way. Agora javardarem dentro dos locais próprios para o efeito, força aí.

gralha disse...

Obrigada, Cê, já pensava que era a única que os deixava misturar tudo. Também há que ver que, hoje em dia, a plasticina até é bem baratinha - compra-se mais!

triss disse...

Adorei o teu post, porque coisas aparentemente sem importância, afinal também são importantes:-)
"Free plasticina!"

Ana C. aina vais a tempo de brincar com plasticina:-)

Melissinha disse...

Platicina misturada rulezzzz