quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Para um amigo querido

Adoraria poder escrever coisas bonitas sobre o paraíso, vida após a morte, sobre o nos reencontrarmos um dia noutra dimensão. Disseram-me muitas coisas assim e, se me confortaram num primeiro momento, de nada ou quase nada me serviram pelos meses adentro. Para gente que pertence a terra, como nós, adianta de muito pouco saber que há outro plano em que nos vamos encontrar. Queremos este plano, esta existência. Queremos o telemóvel, a gargalhada, a crítica sem pudor. Trocamos o momento real pela eternidade sem piscar o olho. Queremos o tempo anterior. Queremos o que nos pertence.

Perder a mãe é das experiências mais rouba-chão que vamos ter na nossa vida, seja em que idade for.
Para tudo. Tudo para. Na verdade, tudo muda, mas é como se tudo parasse. 

O que posso dizer é que melhora. Melhora, sim. E as recaídas de dor, aquela dor surda que não tem jeito, vão sendo cada vez menos frequentes e as memórias da doença se vão esbatendo. O amargo da injustiça da perda também. Tudo vai seguindo em frente, inexoravelmente. E um dia, aquilo passa a ser um divisor de águas, uma baliza para tudo que era antes e tudo que veio depois, mas sem ser uma coisa negativa - é simplesmente diferente e poderoso à sua maneira.

E aí, se tiveres a sorte que eu tive, começas a acreditar em anjos da guarda.

6 comentários:

Naná disse...

Texto 10*

Simples como só isto!

gralha disse...

Adorei o post, Mel.

Ana. disse...

Deixo também um abraço apertadinho, com muito mimo.
...

ouvirdizer disse...

:)

Nos últimos tempos tenho descoberto, quase cientificamente, que deus existe sim, há mesmo qualquer coisa. Curiosamente fui-me afastando mais da igreja, pelo que é(feita por homens, tão de carne e osso quanto eu), e fui ficando mais crente, muito mais crente.
Neste texto, acabaste por dar a volta e, podendo não adiantar de nada a quem está a sofrer a perda, a quente, no momento, explicaste muito bem todo o processo.
Beijo!

Melissinha disse...

podendo não adiantar de nada a quem está a sofrer a perda, a quente, no momento -
é que não adianta mesmo nada, Vera. Mas, com o tempo, vamo-nos lembrando de quem esteve lá ao nosso mesmo quando não notámos, e é sempre reconfortante.

Julieta disse...

Brilhante descrição, Melissa. é isso sem tirar nem pôr ;)