terça-feira, 6 de março de 2012

Crónicas do encolhimento - parte IV - a cabeça

A percentagem de pessoas cujo excesso de gordura não tem que ver com a alimentação é desprezível. As pessoas engordam por comerem mais do que gastam, e engordam muito por comerem muito mais do que gastam.

A Revista Maria, que custa 65 cêntimos, volta e meia traz dicas de nutrição razoáveis. Mais barato do que isso, há fóruns de nutrição e dietética na net, além dos médicos de família e o diabo. Uma consulta por "pirâmide alimentar" na biblioteca local também dá resultados, mas nada disso é preciso na maioria dos casos. Pessoas com um nível de educação razoável sabem o que devem fazer para emagrecer. Porque não o fazem? Por motivos que nada têm que ver com informação ou fatores fisiológicos.

Não me vou pôr aqui a listar motivos para o qual uma pessoa engorda - acho que são os mesmos pelos quais uma pessoa pode cair em depressão, por exemplo, ou até mais simples do que isso. Na minha opinião, se as tentativas de emagrecer já falharam várias vezes, se os quilos voltam todos, é parar de dar murro em ponta de faca e procurar mais fundo no buraco. Chafurdar na lama, se houver lama (e dinheiro para terapia). Controlar a ansiedade da forma mais eficaz (pode ser necessário um ansiolítico, e o médico de família pode passar isso). Arranjar um hobby, talvez? Pois, essa é fraquinha, eu sei, mas para quem gosta de escrever, como eu, isto é um ansiolítico do caraças, e baratucho.

O que importa é mergulhar fundo e descobrir porque é que a coisa não tem funcionado, descobrir o padrão errado. E mudá-lo. Estou a falar da vida, e não da alimentação.

Talvez seja bom parar de esperar que desça a fada da Força de Vontade do céu, porque ela não desce sozinha, é uma preguiçosa de merda e tão gorda quanto nós, tem de ser agarrada pelo pé e puxada para baixo. E ela vai passar a vida a tentar fugir, a filha da puta. Temos de descobrir o que fazer para a manter ao nosso lado, "what moves her", em bom estrangeiro. A minha é movida a verdades. Fica ao meu lado quando não invento mentiras sobre o que como e o que faço, sobre o que sinto, sobre o que quero, sobre o que sou. Ela adora essas cenas.

E só descobri isso depois de mergulhar fundo cá dentro. No meu caso, veio com dor e lágrimas também, mas tudo bem. Estou certa de que o emagrecimento é uma mudança de vida, e não de corpo, e a minha está em andamento, e mudar dói, mesmo.

Não tenho o menor medo de generalizar, neste caso: a cabeça está em primeiro lugar no processo de emagrecimento. Comecem por aí, moças e moços.

5 comentários:

Maria João disse...

Melissa foi dos melhores textos teus que li! Sabes que costumo ver um programa que se chama One year to save my life e é sobre pessoas obesas(muito) que resolvem mudar a sua vida e emagrecer. Com dieta e exercicio fisico, unicamente. E realmente por trás da gordura e da imensa vontade de comer há sempre um factos psicológico, de ansiedade, de escapadela, ou o que for...E isso é tratado ao mesmo tempo que emagrecem e é fantástico. Portanto perdeste 10kg e eu dou-te os parabéns. A sério! Eu sinto-me mal ao dizer isto, mas eu quero perder aqueles quilos a mais depois das minhas gravidezes (5kg praí), logo não tem nada a ver com a tua história, mas estas tuas crónicas têm me dado força e inspirado! Continua mulher:) Força aí:)
Bjinhos!

Melissinha disse...

Não tens nada de te sentires mal, Ó Maria João, eu também já tive só cinco quilos a mais e era uma chatice pegada :) Às vezes é tão difícil perder quanto 10 noutra pessoa. Não falo sobre o assunto porque não sei, mesmo, não é o meu caso - o que eu sei é que, se soubesse o que sei hoje, teria aceite os cinco quilinhos com alegria (e não deixava passar disso) :)

Ginguba disse...

És boa a pôr dedos em feridas, sabias?
Não tenho excesso de pêso mas este post serviu-me direitinho!

(Agora vou-me embora, que tenho ali muito trabalhinho para fazer, não posso estar aqui a procastinar... )

Melissinha disse...

Gingubinha :)

Naná disse...

Melissinha, conseguiste pôr em prosa algo que eu nunca fui capaz de traduzir, mas que sinto cá dentro!
Os 15 kgs de excesso que tenho são por tudo o que aqui falas e pela falta de conseguir ir ao âmago da questão!